Foi eleita em 2021, que balanço faz destes quase quatro anos à frente da autarquia?
Faço um balanço muito positivo, apesar de algumas contrariedades, nomeadamente no que diz respeito ao atraso do Norte 2030 e à abertura dos avisos, que nos levou a que todos os investimentos, projetos e candidaturas tivessem sido só concretizados ou estejam em fase de concretização agora. Isso também nos retirou alguma energia, mas não nos tira o foco. Mesmo assim, faço um balanço muito positivo.
Há vários projetos que estão a ser concretizados em Sabrosa, nomeadamente a Escola Básica e Secundária Miguel Torga. Considera que isto foi uma conquista muito importante para o executivo? Quando estará finalizada a obra?
Eu costumo dizer que a obra da reabilitação da Escola Miguel Torga foi quase um ato de fé. Quando digo que foi um ato de fé é porque houve um mapeamento das escolas e Sabrosa estava nos últimos lugares. Mas nunca deixei de acreditar que era possível aquele projeto, aquela candidatura. Quando abriu o aviso, nós éramos um dos municípios que tínhamos tudo pronto. Fizemos uma candidatura ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), e o prazo de execução é até 30 de junho de 2026. A obra está em fase de execução, mas o ‘timing’ é apertado. Mas estou convencida que vamos conseguir tê-la pronta nessa altura.
Como autarca, o que a mais preocupa no concelho que lidera?
Sabrosa é um concelho do interior. Uma das coisas que me preocupa, como a todos os autarcas do interior, é a perda e envelhecimento da população. Preocupa-me também a diminuição dos serviços públicos, o que nos provoca muitos constrangimentos.
A mobilidade também é outra questão preocupante. Nós temos aldeias que distam da sede do concelho cerca de 25 quilómetros, com estradas nada fáceis de fazer. Temos muitas preocupações e responsabilidades para com os nossos munícipes, que o litoral e as áreas metropolitanas não têm.
Acabou de dizer que o envelhecimento da população é uma das principais preocupações de Sabrosa. Essa faixa etária tem recebido um cuidado especial por parte do executivo?
Tem necessariamente que receber, porque muitas das nossas aldeias distam a alguns quilómetros da sede do concelho. É em Sabrosa que as pessoas vão ao médico, as crianças e os jovens vão à escola.
Temos feito uma política de muita proximidade com essa faixa etária tão importante da nossa população, porque é aos mais velhos que nós devemos tudo, pelo que temos a obrigação de os cuidar, não só a nível político como até a nível moral e afetivo, o que é uma grande responsabilidade.
O município tem um conjunto de apoios e de atividades, em que procuramos ter os idosos envolvidos. Temos uma equipa que vai às sedes de freguesia e que acompanha um conjunto alargado de idosos nessas atividades, que vão desde o desporto até à enfermagem, etc. Mas também comparticipamos a aquisição de medicamentos, uma vez que muitos deles vivem com uma parca reforma, que mal dá para comer. Temos eventos, como o passeio anual, que é, para mim, um dos momentos mais felizes do ano, porque é muito gratificante esta proximidade com as pessoas, que têm muita necessidade de falar, porque muitos vivem isolados.
Há ainda a equipa do Radar Social que está no terreno a referenciar idosos que necessitam de ajuda, mas, muitas vezes, basta o facto de a equipa se deslocar a casa das pessoas, falar com elas, e isso até é o mais importante que qualquer apoio que possamos dar.
Na grande maioria dos concelhos do interior a população idosa tem vindo a aumentar e a jovem a diminuir. O que poderia ser feito para fixar a população mais jovem em Sabrosa?
Para os mais jovens há muita coisa que pode ser feita, mas o mais importante é criar emprego. Nós estamos a desenvolver um projeto de Construção de várias habitações a custos controlados destinadas aos jovens, para que estes se possam fixar com habitação digna a preços acessíveis, por exemplo. As soluções passam muito por aí, ou seja, pela habitação e o emprego. Neste caso, alargamos a zona industrial, para ali se instalarem muitas empresas, que vão criando algum emprego, mas a maior parte do emprego gerado no concelho é na função pública (Câmara Municipal e IPSS).
Relativamente à estratégia local de habitação, quantas casas vão ser construídas e quantas famílias vão ser beneficiadas?
Este projeto contempla a reabilitação de 46 fogos, em que foram adquiridas casas em ruínas ou em estado de degradação. O projeto já está em execução e no final serão beneficiadas 46 famílias, que passarão a ter condições mais dignas.
Em que fase está a Área de Acolhimento Empresarial em São Martinho de Anta e qual é o investimento?
A Área de Acolhimento Empresarial de São Martinho de Anta está um pouco atrasada, porque estamos ainda na fase de aquisição de terrenos. Existe um projeto que está desfasado no tempo em termos de investimento. Neste momento, o orçamento vai ter que ser totalmente revisto, mas, à partida, será muito acima dos dois milhões de euros.
“O Governo tem que aplicar políticas que sejam eficazes para ajudar os viticultores, uma vez que um concelho sozinho não tem essa capacidade”
O município tem um projeto para requalificação do mercado municipal, que poderá ganhar uma nova dinâmica?
Eu acredito que sim. O mercado municipal foi feito nos anos 80, já com uma perspetiva arrojada para a época, mas agora encontra-se completamente degradado e com uma cobertura em amianto, que tem de ser retirada. Os comerciantes não têm condições para prestar um bom serviço aos clientes, e também não é um local atrativo para as pessoas ali fazerem as suas compras.
O projeto de reabilitação vai conferir-lhe uma nova volumetria, com outra estética e outro acolhimento. Será uma zona em que as pessoas não irão lá apenas para comprar, mas também para estar, conviver e partilhar.
Quando irão começar as obras?
Acabamos de submeter a candidatura, pelo que acreditamos que vá ser aprovada. Se não for, está nos nossos planos proceder à reabilitação do espaço, até porque recebemos muitas reclamações e os comerciantes merecem ter outras condições.
O volfrâmio, no Vale das Gatas, teve grande importância durante a Segunda Guerra Mundial. Sei que gostaria de ali desenvolver um projeto. O que está previsto?
A ideia era homenagear os mineiros. Muitos ainda são vivos, mas também muitos morreram com doenças provocadas pelas minas. Foram pessoas muito importantes para a economia do concelho e do país, pelo que é fundamental que eles sejam homenageados e que essas memórias não se percam. Para isso, está a ser feito um levantamento do património imaterial, testemunhos dos mineiros, num trabalho desenvolvido em parceria com a UTAD. Um trabalho que já está feito foi falar com as mulheres e as crianças que também trabalharam lá. Em desenvolvimento está o levantamento da parte documental (mapas de minas, cartões dos mineiros). No entanto, a maior parte do complexo mineiro é privado, mas há um edifício que pertence à Junta de Freguesia de São Lourenço, que fez um contrato de comodato com a câmara para que possamos desenvolver o projeto.
A autarquia pretende criar uma via panorâmica entre a estrada que liga o Pinhão a Covas do Douro?
O projeto está feito, a candidatura submetida, mas ainda não há verbas asseguradas. Está em análise na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) e já teve um parecer positivo, mas estamos a aguardar o resultado da candidatura. Para além de ser uma via com grande potencialidade turística, há a questão da segurança, o que torna a via muito pouco atrativa, já que a estrada está num estado muito degradado. Independentemente do resultado da candidatura, nós iríamos ter que intervir naquela via.
Relativamente à área da saúde, o município tem uma boa cobertura de médicos para toda a população?
Não nos podemos queixar. O centro de saúde está em obras, que tiveram financiamento do PRR, que vai incidir sobretudo na eficiência energética. Estive recentemente com a coordenadora, que não manifestou qualquer dificuldade na contratação de médicos.
O Douro, especialmente Sabrosa, tem recebido cada vez mais turistas, mas a grande maioria não deixa muitas receitas nos concelhos. Como é que se pode combater este paradigma?
O turismo é sempre bem-vindo, mas a verdade é que o turismo no Douro, sobretudo o turismo em barco-hotel não deixa absolutamente nada. Eles passam em carrinhas e não param na vila, nem em São Martinho de Anta, por exemplo, onde temos o Espaço de Miguel Torga. Tem de haver uma ação consertada entre todos os municípios no sentido de se taxar quem pernoita no barco-hotel no Douro. Acho que não poderá ser uma taxa elevada, mas faz todo o sentido aplicar, até porque somos um património classificado pela UNESCO, que precisa de ser protegido.
A nível cultural, Sabrosa tem vindo cada vez mais a apostar em eventos gratuitos para a comunidade, quais são os projetos para o futuro?
Nós temos um programa cultura para todos, que contempla gratuidade nas entradas nos espaços culturais, também nos eventos, até nas sessões de cinema, em que ninguém paga nada. É uma política que já vem de há alguns anos e a ideia é fomentar a visita aos espaços, a ida aos espetáculos, aproximar a cultura da população. Iremos ter mais um espaço de cultura na vila, onde será criada a biblioteca municipal, que irá ser construída na casa que pertenceu ao fadista Manassés e que foi doada pelos seus familiares à câmara municipal. A casa fica situada na Rua de S. Roque, na vila de Sabrosa, e terá, no futuro, fins de utilização e valorização cultural para benefício da população, mantendo na sua fachada a placa com referência ao cantor Manassés de Lacerda.
O Douro passa por momentos difíceis. Que soluções poderiam ser encontradas para ajudar os viticultores da região?
Esse é um problema muito grave que a região está a atravessar. Nós não podemos esquecer que a região tem cerca de 20 mil pequenos produtores, em que muitos deles estão a receber cartas das grandes casas que antes ficavam com a sua produção e agora dizem que não lhes vão ficar com as uvas. Mas há várias soluções. A questão da destilação em crise, a utilização da aguardente da região para fazer o vinho do Porto. E deveria ser imediatamente interrompido o VITIS, que é um subsídio para construir novas vinhas ou reconversão de vinhas. É um contrassenso.
As adegas têm stocks de anos anteriores por vender, pelo que temos de nos unir e encontrar mais soluções junto do Governo, porque os pequenos produtores e a região não podem ficar abandonados ao seu destino.
Sente que o Poder Central não houve as vossas preocupações, especialmente nesta questão do vinho?
Ao nível da CIM houve esta concertação de todos tentarmos ajudar, como aconteceu com as eleições para a Casa do Douro. Disponibilizamos espaços e pessoas para que se realizassem as eleições, entre outras situações.
Eu já me desloquei a empresas de vinho com alguma dimensão, sediadas em Sabrosa, que não têm dificuldade no escoamento. A dificuldade está nos pequenos produtores. A CIM Douro, em conjunto com os 19 municípios, tem de olhar para este problema de uma forma séria e comprometida, só assim teremos força suficiente para o Governo nos ouvir, porque são soluções que não passam por nós. O Governo tem que aplicar políticas que sejam eficazes para ajudar os viticultores, uma vez que um concelho sozinho não tem essa capacidade.
Se estivesse em Lisboa e a possibilidade de criar medidas, quais seriam?
Eu penso que a destilação em crise, se calhar é a solução mais fácil. A vindima mais cedo também poderá ser uma solução.
Agora, é impensável este sistema de negócio, em que as pessoas vendem as uvas sem saber o preço, que está igual ou até mais baixo do que há 10 ou 20 anos. Isto é impensável. E isso vai levar a que muitos pequenos agricultores abandonem as vinhas e o Douro, que é um património classificado.
E quando as vinhas ficarem a monte e deixarem de ser cultivadas, deixa de haver paisagem. Ou então há a absorção das grandes casas e das grandes empresas de vinhos, que vão, obviamente, aproveitar-se da crise e adquirir esses terrenos a preços muito baixos, e continuaremos a ter as pessoas mais frágeis a sofrer mais com isso.
Para terminar, como está a situação financeira do município?
Está bem, mas Sabrosa tem poucas receitas. E as poucas que tem, ainda devolve meio por cento do IRS aos munícipes.
Tentamos fazer uma gestão equilibrada, mas quando se tem um quadro de investimentos como aquele que estamos a fazer neste momento, isso vai obrigar-nos, muito provavelmente, ao recurso ao crédito bancário, porque não temos forma de executar alguns projetos sem esse financiamento. Eu, pessoalmente, não gosto muito, mas estamos a falar também de investimento que fica no concelho, para proporcionar melhor qualidade de vida aos nossos munícipes.
Um orçamento pequeno como o nosso, onde as receitas são poucas, temos de fazer uma gestão muito cuidada dos recursos.





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