Sábado, 4 de Dezembro de 2021
António Martinho
VISTO DO MARÃO Ex-Governador Civil, Ex-Deputado, Presidente da Assembleia da Freguesia de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Dois pesos e duas medidas

Nem há como aparecer uma polémica para se testarem certas visões estratégicas de desenvolvimento e algumas incoerências face a problemas semelhantes.

-PUB-

Estou convencido que os fundamentalismos, normalmente, exasperam as situações pois, ao esticar-se a corda num determinado sentido induz-se a parte contrária a puxar um pouco mais. Daí a partir… E quando, por entre os fundamentalismos, surge alguma verdura, pior ainda.

Há dias, um Secretário de Estado, imbuído de boas intenções veio N2 acima e entrou por Terras de Barroso. Subiu as escadas de uns Paços do Concelho, escutou as razões do Presidente anfitrião (nem sequer se deu conta que os telefones funcionam bem por aqueles lados) e lá foi tentar mostrar as virtualidades da riqueza daquele sítio no minério a que já chamam o “petróleo do séc. XXI”. Seguiu-se um “Prós e Contras” com claques e umas entrevistas aqui e ali. A informação de uma grande unidade de transformação de lítio chegou a talho de foice. Não há, na Europa, uma “refinaria para a produção de hidróxido de lítio”, o que também pode posicionar Portugal para “atrair investimentos em fábricas de baterias, ou de cátodos, ou de powerwalls”, afirmou-se. Seria, pois, natural que a dita cuja refinaria se destinasse à região do Barroso ou sua proximidade. Não. Pensava-se em Leixões. Ora, se o lítio é um recurso endógeno numa determinada região, antes de mais, ele deve ser explorado com as populações das terras onde existem essas jazidas. Envolvendo-as, a elas e aos autarcas responsáveis pela gestão dos territórios. E o valor acrescentado que tal produto pode proporcionar também deve entrar nessa equação. Uma região que dá matérias-primas tem direito a receber outro tipo de indústria para poder fazer o seu caminho para o desenvolvimento.

Também com um outro recurso que ainda vamos tendo com alguma abundância, por enquanto, se vive semelhante discrepância. Quando nos anos 90 do século passado, alguém com coragem decidiu fazer avançar a barragem do Alqueva, arriscou ao surgimento de problemas inevitáveis como foi a deslocalização da aldeia da Luz. Tive a oportunidade de acompanhar alguns problemas inerentes. E a solução foi a construção de uma outra aldeia, melhorando até alguns aspetos. Ora, neste último ano e meio, as populações de algumas localidades abrangidas pela barragem de Daivões, no concelho de Ribeira de Pena, confrontaram-se com a saída das casas de uma vida, que ficarão submersas. Reconhece-se que o problema devia ter sido acautelado há oito/nove anos, quando se iniciaram os trabalhos. O deixa andar é sempre mau conselheiro. Ainda bem que o atual autarca daquele município, João Noronha, soube encontrar, no pouco tempo que restava, uma estratégia que repusesse a salvaguarda dos direitos dos seus munícipes. Se não pode haver uma solução ”Alqueva”, que se encontre outra, também justa para as gentes que ficarão sem casa. De molde a que se evite mais uma situação de “dois pesos e duas medidas”
 

Mais Lidas

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.