A concentração começou ainda antes das 15h00, no Cais do Sodré, em Lisboa, mas já passava das 15h30 quando milhares de professores arrancaram em protesto até aos Restauradores.
Com os bombos a marcar o ritmo, o desfile marcado por muitas faixas, bandeiras, cartazes, avançava ao som de palavras de ordem como “A luta continua, nas escolas e na rua” e “Negociação Sim, imposição não”.
Ainda antes do arranque do protesto, José Feliciano da Costa, um dos secretários-gerais da Federação Nacional dos Professores (Fenpof), explicou que os professores estão nas ruas mobilizados contra a revisão do Estatuto da Carreira Docente, mas também contra o pacote laboral.
Este pacote laboral, disse, terá impacto em todos os trabalhadores, razão pela qual a Fenprof anunciou a adesão à greve geral de 03 de junho, convocada pela CGTP.
“O processo de revisão da legislação laboral que está a acontecer é agressivo, os professores não desligam isto, o que aconteceu num lado tem repercussões neste, e já está a ter nesta revisão do Estatuto de Carreira Docente, e daí a participação dos professores nessa greve geral, não desligando e dizendo também que estão na greve em luta pela escola pública e pela valorização da carreira”, afirmou.
Sobre as negociações do estatuto, acusou o ministro da Educação, Fernando Alexandre, de querer “diluir, descaracterizar e extinguir a carreira” e afirmou que os professores saíram à rua para dizer ao Governo que querem que o processo negocial “vá noutro sentido, de valorização” da profissão.
Recordando a carta que Fernando Alexandre escreveu esta semana a todos os professores, à qual apontou “um conjunto de inverdades e de incorreções”, o sindicalista disse também ser reveladora de “alguma preocupação latente” do Governo relativa à mobilização dos professores.
“O ministério sabe disso, percebe também que há esta discordância e esta revolta no ar e, portanto, esperemos que o Ministério da Educação (…) – porque a democracia é assim, portanto, a luta resolve também e esclarece muitas das negociações -, esperemos que o Ministério da Educação tenha essa sensibilidade também”, disse.
MOÇÃO
A moção da manifestação de hoje prevê iniciativas de rua para 15 de junho – contra o calendário do pré-escolar e 1.º ciclo – e 26 de junho – sobre a revisão dos estatutos -, concentrações contra os estatutos e eventuais protestos e intervenções em agosto, caso a tutela “avance com novas medidas prejudiciais à profissão e à escola pública”.
Presente na manifestação, o secretário-geral da CGTP, Tiago Oliveira, apelou à participação de todos os trabalhadores na paralisação geral de 03 de junho, “sindicalizados ou não sindicalizados”.
Para o secretário-geral, a apresentação da proposta do pacote laboral do Governo ao parlamento veio dar razão à intersindical na convocação da greve e de “endurecer o patamar da luta”, pelo que o pior que se podia fazer “era ficar à espera que o mal acontecesse”, sendo este o “momento certo de combate, denúncia e derrota do pacote laboral”.
Sobre a possibilidade de a UGT ainda se juntar ao protesto, Tiago Oliveira disse que “todos os que construíram a greve geral de 11 de dezembro deviam continuar a partilhar este momento de convergência para derrotar o pacote laboral”.
Afastado da direção da Fenprof, mas não da luta e representação sindical, o ex-secretário-geral Mário Nogueira também marcou presença.
Tendo ainda presente a memória de revisões anteriores, afirmou que nenhuma, nem aquela em que a ministra socialista Maria de Lurdes Rodrigues dividiu a carreira em duas, “teve a perigosidade nem causou a preocupação” desta.
Mário Nogueira alertou para tentativas de pôr fim ao estatuto de carreira especial que os professores têm, referindo que, quando isso foi feito noutras carreiras, como a dos enfermeiros, “só trouxe prejuízos”, alertou para incoerências no discurso do ministro Fernando Alexandre, ao dizer que quer valorizar a carreira, mas em simultâneo lamentando o que gasta com ordenados dos docentes.
TESTEMUNHOS
Junto às filas da frente, com um grupo de colegas vestidas com uma t-shirt preta a exigir “Respeito” pelos professores, Nicole Sousa, professora no primeiro ano de profissão, já estava desperta para a luta quando ainda estudava.
“Mesmo com todos os contratempos que a profissão acarreta, nós temos que lutar para que as condições melhorem”, disse à Lusa.
Nicole Sousa, que teme vir a perder direitos e condições de trabalho ao longo da sua ainda curta carreira, manifestou-se preocupada com “o desrespeito” pela profissão, “uma das mais importantes do mundo”.
Umas filas mais atrás, Lurdes Rebelo, professora aposentada e fundadora do sindicato da região centro, quis apelar a maior envolvimento dos mais jovens na luta e disse marcar presença para assumir as suas responsabilidades sindicais.
“Fomos nós que construímos o estatuto da carreira docente, que agora querem destruir. Não pode ser, não pode, não podemos andar para trás, é impossível”, disse.
Recordando declarações de há quase um ano de Fernando Alexandre, que disse que os professores que saíam à rua em manifestações “perdiam a aura”, Lurdes Rebelo, que ironicamente desenhou com as mãos uma auréola à volta da sua cabeça, deixou um recado aos mais novos.
“Esta gente nova tem que tomar consciência que a situação é esta e quem está em casa descansado, a pensar que perde a aura, que esteja descansado, mas não vai ter sucesso, porque o pacote laboral vai abranger todo o mundo”, disse.
Do Cais do Sodré aos Restauradores foram vários os momentos em que os professores entoaram: “A aura que se lixe, estamos na manif!”.
Mauro Pinto, professor desde 2010, admitiu que, além das preocupações com o pacote laboral, preocupa-o sobretudo que a revisão dos estatutos ponha fim à carreira especial.
Junto à frente da manifestação, o deputado único do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, acusou o ministro da Educação de manter “braços de ferro inúteis” com os sindicatos, ao invés de se concentrar numa negociação dos estatutos que valorize a carreira.
Para o bloquista foi “anedótico e dramático” o ministro ter dito, “curiosamente, no dia 01 de abril”, que um dos problemas é haver escolas com professores a mais, ao mesmo tempo que revela não saber quantos professores faltam realmente nas escolas, mesmo depois de ter mandado estudar o assunto.
“O Governo deve-se deixar de marketing, de propaganda, de mentiras, de sentar à mesa com os sindicatos que têm propostas razoáveis e de garantir que há paz nas escolas, por um lado, e por outro, que nós convencemos a juventude portuguesa que vale a pena tirar cursos com a vertente de ensino. Nós precisamos de uma grande campanha de mobilização nacional para encher a escola pública com novos professores”, disse o deputado.
Também o PCP se fez representar na manifestação, com uma delegação composta pela líder parlamentar Paula Santos, e Jorge Pires e Teresa Chaveiro, do Comité Central do partido.




