Sexta-feira, 26 de Novembro de 2021
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Guiomar Aguiar- Adeus “cantora lírica”

Guiomar Aguiar deixou-nos e já não volta mais…não volta mas estará sempre presente na vida de todos os que conviveram e partilharam a música com ela, a arte lírica, como gostava de dizer. Ultimamente esta delicada e responsável senhora tinha como almofada de vida a Universidade Sénior de Vila Real. Os dias da semana só […]

-PUB-

Guiomar Aguiar deixou-nos e já não volta mais…não volta mas estará sempre presente na vida de todos os que conviveram e partilharam a música com ela, a arte lírica, como gostava de dizer. Ultimamente esta delicada e responsável senhora tinha como almofada de vida a Universidade Sénior de Vila Real. Os dias da semana só faziam sentido porque havia um dia em que a Guiomar esperava pela aula de “Música e Canto” como quem espera por um dia de sol, depois de tempos de tempestade e de sombras.

 Na chegada à Universidade Sénior ela procurava-me ansiosa e invariavelmente perguntava-me com sorriso aberto, raiado de luz e felicidade: “Ó professor está mesmo bom?” Enquanto o dizia, a mão estendia-se-me comprida e delicada até que eu a olhasse de frente fraternalmente. De imediato ia para o seu lugar e rapidamente começava a cantarolar uma qualquer música do reportório sempre com aquela voz apaixonada e firme de canto lírico, por vezes embargada da emoção com um registo elevado de tessitura. Melómana indefetível, toda a sua vida esteve ligada a grupos corais bem como atividades ligadas à área da representação.

Normalmente, depois da aula terminada, aguardava que eu me dirigisse a ela para a confortar nas palavras e a estimulasse no ensejo de continuar a cantar, independentemente da sua avançada idade: “89 já cá cantam e continuo a ter aulas de canto, canto lírico, claro está”, dizia-me repetidas vezes…Saía sem pressa para sentir o calor da alegria de ali estar, um lugar mágico de confraternização com os colegas, levando consigo a lágrima da alegria, e ao mesmo tempo a inquietação da tristeza por só voltar dali a uma semana. Já ao fundo das escadas olhava para trás e dizia-me: “Então professor, até para a semana… cá estarei…”

Nas últimas semanas subia as escadas de bengala, notava-se o cansaço do corpo, mas os olhos brilhavam com a chama de quem vai cumprir mais uma missão ditada pela força do amor à música. E a Guiomar cantando elevava-se atingindo um crescendo de paixão palpitante.

Como poeta que insistentemente quer ver a altitude da lua luarenta, ou os píncaros das serranias banhadas de branco, também a Guiomar com a partitura dos sons que leva na bagagem vai subir bem alto para o coro celestial dos anjos e cantar em plena harmonia no mesmo lugar, à frente e no canto direito. 

Os sons desciam-lhe à alma profundamente como quem reza, como quem chora de paixão. Para ela eram sons de oiro, amplitude calma. Era a música que falava por ela porque a libertava para a vida, que ela tanto amava pela música. Vai fazer falta a Guiomar. Aquele lugar à frente, do lado direito, vai ficar vazio e de luto. Adeus Guiomar, adeus cantora lírica.

Mais Lidas | opinião

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.