Sábado, 20 de Julho de 2024
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Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Invencionices e complexos de inferioridade

Há organizações que são verdadeiros casos de estudo, na arte de inventar e de agir, que é de se lhes tirar o chapéu.

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Há dias, ao ler um dos jornais de distribuição gratuita, que circulam por aí, reparei num anúncio publicitário sobre cursos de verão, supostamente para acesso a novas profissões, que não lembram ao diabo. Há estabelecimentos de ensino, como aquele que dá pelo sugestivo nome de Escola de Massagem e Nova Terapia (constante do mencionado anúncio), mais apostados numa estratégia mercantilista, como parece ser o caso, com ocupação do tempo de férias de verão, do que na verdadeira formação de jovens. 

A referida escola propõe-se ministrar cursos, durante esse período, com uma carga horária, que oscila entre as 25 e as 300 horas, como preparação para acesso a vários tipos de novas profissões, que mais não são do que meras invencionices, sem qualquer alcance prático e estável para o futuro dos potenciais candidatos. Desde a Massagem Geotermal, Técnica de Massagem, Massoterapia, Massagem ao Pé, Massagem ao Rosto, etc., vê-se de tudo numa panóplia de especializações, de efeitos práticos muito discutíveis, mas que são capazes de fazer inveja aos técnicos do departamento de prospetiva do Instituto de Emprego e Formação Profissional.

A sociedade portuguesa, e não só, tem vindo a sofrer, de há largos anos a esta parte, uma transformação radical nos hábitos e relações de trabalho, com reflexos sociais, culturais e profissionais, cujos efeitos mais notórios se verificaram na alteração de nome de algumas profissões nossas velhas conhecidas como, por exemplo, a de contínuo das escolas e servente dos hospitais, que passaram a ser denominadas por auxiliar de ação educativa e auxiliar de ação médica, respetivamente.

Essas alterações de nome, sem que se tenha verificado qualquer modificação estrutural nas funções, antes desempenhadas pelos seus detentores, só se podem compreender por complexo de inferioridade, com alguma saloiice à mistura. Uma sociedade civilizada, como sabemos, é constituída por classes de diferentes estratos sociais, onde cada um tem a sua ocupação, desempenhando ou não uma profissão, para a qual está vocacionado e preparado. O melindre e a alergia ao labéu de inferioridade, que alguns arrastam consigo, pelo facto de pertencerem a um universo profissional indiferenciado ou às chamadas profissões de “baixa” condição social, levou a que uns chicos espertos, com influência no aparelho de Estado, sugerissem e vissem aprovada a substituição da designação de grande parte delas, para se poderem vangloriar de terem contribuído para uma ilusória erradicação das diferenças de estatuto social, inerentes à “maldita” sociedade capitalista, que tanto abominam.

As invencionices e os complexos de inferioridade com que alguns encaram o sistema de organização das sociedades humanas, ao nível das suas relações em geral e do mundo laboral em particular, são uma das causas que mais têm contribuído para o nosso atraso cultural

Por tudo isto, bem se pode dizer que vivemos num País das fantasias.
 

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