Desistir é palavra que não consta no dicionário de Estefânia Vila Nova. Natural de Chaves, com apenas 22 anos de idade, é gerente e chef de um restaurante no centro de Verín, na vizinha Espanha. “Na minha família é quase tudo cozinheiro. Em criança tinha muita curiosidade pela cozinha. Achava piada e perguntava porque é que fazia isto desta ou daquela maneira”.[/block]
Formada em Restauração, Cozinha e Pastelaria pela Escola Profissional de Chaves, lembra-se que “a primeira coisa que fiz na minha vida foi uma tarte de maçã, quase às escondidas. A minha mãe saiu de casa e eu decidi por as mãos na massa”.
Ao terminar o terceiro ciclo de estudos, “já sabia que queria seguir esta área. Na Técnica (Escola Dr. Júlio Martins), tive uma professora que me disse que tinha de fazer os testes (vocacionais) para saber aquilo que devia escolher no secundário. Assim fiz. No final, só me deu a opção de cozinha e a responsável disse “ou segues essa área ou morres à fome”. E assim foi”.
Ainda que o “bichinho” venha da família, “eu gosto do que faço. Sou feliz assim, ainda que implique vários sacrifícios”. Para uma “chef”, “não há horários, dias santos, feriados nem fins de semana. Ainda assim, não tenciono mudar de área. Como se costuma dizer, quem corre por gosto, não cansa. É lutando que se conquista”, frisou.
A MUDANÇA
O seu “Paladar” que, desde 28 de maio de 2021, se situa no número dois da Rúa da Cruz, junto à conhecida Praza García Barbón, num edifício histórico que data do século XV-XVI, já teve morada na cidade de Chaves.
Em dezembro de 2019, Estefânia abria portas na Rua Pedisqueira. “Com a chegada da pandemia e o isolamento, tive de fechar o restaurante em março de 2020, poucos meses depois. Quando foi possível reabrir, como não tinha esplanada, não valia a pena arriscar”.
Foi, então, que “através de uma amiga espanhola, que conhece bem esta Praça, soube que este espaço, que também foi, em tempos, um restaurante, estava para alugar. Na altura, as fronteiras estavam fechadas e não foi fácil. Como o meu pai era trabalhador transfronteiriço, veio ele, primeiro. Depois, quando abriram as fronteiras, vim com a minha mãe e fizemos negócio em meados de abril”.
Depois de mais de um mês “a tratar de papelada”, que revela ter sido o maior entrave, pelo facto de ser portuguesa e, até então, “não ter documentos espanhóis”, conseguiu abrir portas.
“Foi um tiro no escuro. A inauguração correu mesmo muito mal. Ainda me estava a adaptar à cozinha e a equipa ao espaço. Lembro-me que, nesse dia, pedi desculpa a toda a gente”, revelou.
Contudo, não baixou os braços e revela estar “muito feliz. Espero ficar por aqui durante muitos anos. O balanço é muito positivo. Na altura, pensei que ia correr mal, até porque não conhecia ninguém. Apesar de vizinhos, pela fronteira, somos “estrangeiros” e “a comida é sempre diferente”.
Porém, “a adesão tem superado as expectativas. Claro que quanto mais conhecidos somos, maior é a hipótese de termos quem não goste de nós. Certamente a comida, exclusivamente portuguesa, não agradará a todos”, mas, “por norma, quem experimenta regressa. Recebemos pessoas de norte a sul de Portugal, muitos espanhóis e, também, muitos turistas de outros países. Tem sido gratificante”, frisou Estefânia.
APOIO DA FAMÍLIA
A jovem flaviense não embarcou nesta viagem sozinha. Conta com o apoio “incondicional” da sua mãe, Josefa Vila Nova, o seu braço direito, com quem divide a cozinha do “Paladar”.
“No início tivemos bastantes dificuldades. Não foi fácil, mas o esforço valeu a pena. Costumamos trabalhar sempre as duas juntas e isso é o mais importante. Desde que a Estefânia acabou a escola, tirando um ano em que esteve fora, a fazer estágios, trabalhou sempre comigo”.
A rotina “tem momentos complicados. Com o stress do restaurante, nem sempre é fácil, mas penso que isso acontecerá em todos os trabalhos, seja com familiares ou não. Ao final do dia, está sempre tudo bem. Para já, a experiência tem sido ótima. Daqui para a frente, esperemos que assim continue”, frisou Josefa.
Mãe e filha continuam a residir em Portugal, na localidade de Paradela de Monforte. Contudo, não têm dúvidas que, caso não tivesse existido pandemia, a mudança para Verín seria “inevitável. Aqui temos outras condições, outras vantagens. Basta dizer que estamos a 20 minutos de Chaves com uma diferença salarial muito grande, que ronda os 400 euros”.
Porém, “a falta de mão-de-obra também é uma realidade aqui em Espanha. É-nos difícil conseguir manter uma equipa. Há muita rotatividade e muita gente que não quer trabalhar”, revela Estefânia, que diz estar disposta “a ensinar quem quiser atravessar a fronteira”.
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