Adão Pereira, de 63 anos, é uma figura conhecida na terra que o viu nascer por ser um dos mais experientes construtores das famosas máscaras de madeira que embelezam o Entrudo de Lazarim.
É numa oficina nas traseiras de sua casa que a magia acontece e foi lá que o fomos encontrar, dias antes do Carnaval. Estava a preparar uma máscara para a neta e, ali ao lado, umas quantas já estavam terminadas.
“Nunca faço uma máscara igual à outra. São todas diferentes, porque faço isto a olho. É o que sair”, conta, lembrando que tudo começou “por brincadeira”, quando tinha 16 anos. “Já era costume sairmos à rua, no Carnaval. Eram outros tempos, até porque não vinha cá ninguém de fora. No meu caso pegava em rendas da minha mãe e até naquelas meias de vidro, fazia uns buracos e ia brincar para a rua. Juntávamo-nos uns quatro ou cinco, pegávamos em tachos velhos e fazíamos barulho pela rua fora. Houve um dia que um colega nosso apareceu com uma máscara de madeira e eu gostei dela. Fui para casa e uma semana depois tinha a minha primeira máscara feita”.
Da máscara recorda que “era muito mal feita”, mas não sabe bem o que era. “Tinha o queixo muito comprido, o nariz muito grande e olhos que não tinha jeito. No ano a seguir fiz outra que também não ficou muito bem. Entretanto, fui aprimorando a técnica”.
Desde essa altura, e enquanto foi careto, “saí à rua com máscaras feitas por mim. Não fazia sentido ser de outra forma. Cheguei a ir de burro, com umas muletas a fazer de patas. E também de porco e canguru, com o meu filho na bolsa. Ganhei muitos prémios”, refere.
“Antigamente, o entrudo era diferente, até tínhamos medo que se descobrisse quem escreveu o testamento. Agora não, até a linguagem que usam é diferente, há muitas asneiras lá no meio. Hoje, as pessoas até acham piada a isso, mas há uns anos era motivo para nos quererem bater”, afirma.
PEÇAS ÚNICAS
Adão deixou as brincadeiras de careto para os outros e hoje dedica-se apenas à elaboração das máscaras. “Todos os anos tenho cerca de 20 máscaras na rua”, indica, salientando que “não faço uma igual à outra. Podem ser parecias, mas iguais não”.
A máscara que está a fazer para a neta, por exemplo, “estou de volta dela há quatro dias. Mais dois e está pronta. Mas tenho trabalhos que levam duas semanas a ficarem prontos”, indica.
Sobre o processo, vinca que “faço tudo a olho e nem sempre sai como a gente quer”. A madeira utilizada é o amieiro em verde, porque “é macia para trabalhar”. “Geralmente, corto o pau a seguir à vindima, lá para outubro, e começo logo a trabalhar nas máscaras, porque esta madeira, se estiver muito calor, tem tendência a partir ou abrir”, explica Adão Pereira, acrescentando que “trabalho não é tanto pelo facto de fazer dinheiro com as máscaras, é mesmo para vê-las sair à rua”.
Tanto que “quem mostra vontade de comprar uma máscara há uma coisa que lhes peço: deixá-la sair à rua, à minha responsabilidade. O bonito disto é as máscaras saírem à rua”.
Sobre o custo de uma máscara, Adão Pereira diz que “não vendo nenhuma a menos de 250 euros”, sendo que “depois depende da máscara, do trabalho que dá, do tempo que demoro a fazê-la”.
E esta é uma tradição que tem continuidade garantida. “O meu filho já faz máscaras e já ensinei alguns jovens aqui de Lazarim”, conclui o artesão.




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