Quarta-feira, 24 de Abril de 2024
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“O interior só sobrevive porque existem câmaras municipais, senão já tinha fechado”

À frente dos destinos da Câmara de Boticas há mais de 10 anos, Fernando Queiroga faz um balanço positivo deste período.

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Admite que fazer juízo em causa própria “é sempre suspeito”, mas diz-se “satisfeito e realizado”, um trabalho recompensado com largas maiorias nas eleições.

A aproximar-se do final do último mandato, Fernando Queiroga afirma que ser autarca “é um trabalho honroso”, que lhe dá “muito gosto fazer” e diz mesmo que “não há cargo nenhum que dê mais realização pessoal do que ser presidente de câmara, porque temos o poder de decidir e fazer coisas”.

Considera que “em 12 anos não se consegue fazer tudo o que queremos”. Assim, e apesar de concordar com a limitação de mandatos, acha que seria preferível instituir dois mandatos de seis anos cada. “Dava tempo para fazer projetos com dimensão, obter vistos e pô-los em prática, porque os ciclos eleitorais cortam algum espaço temporal”, argumenta, além da poupança com menos um ciclo eleitoral.

DE SECRETÁRIO A PRESIDENTE

Foi secretário, adjunto e chefe de gabinete do presidente da câmara, passando depois a vereador e vice-presidente, mas garante que não pensava ser político quando era novo. “Se me perguntassem se sonhava ser presidente de câmara diria, taxativamente, que não. Não era o meu objetivo de vida”, assegura. Entrou “nestas lides” em 1996 e foi “subindo degrau a degrau” dentro da câmara. “Em 2005, o presidente da câmara de então convida-me para ser vereador e confesso que não estava à espera”. Foi “sem contar” que chegou a presidente de câmara em 2013.

Liderar uma autarquia do interior pode parecer menos complexo, mas Queiroga garante que “é muito mais trabalhoso”. “Pode pensar-se que uma câmara grande dá muito trabalho, mas não dá uma terça parte de uma pequena”, isto porque, conclui, naquelas há mais colaboradores e assessores do presidente, que “lhe fazem muito trabalho”. “Aqui, os recursos são poucos e a capacidade de recrutar é menor”, afirma, além de que a proximidade tem os dois lados da moeda. Nas grandes cidades, “as pessoas conhecem o presidente da televisão e dos jornais. Nós onde quer que estejamos, somos identificados, somos de cá, as pessoas falam connosco em qualquer sítio. Por mais pequeno que seja o problema, sabem com quem vão falar”.

E a porta está sempre aberta. “Desde que assumi este cargo não há dias de atendimento. Se estiver cá, faço sempre atendimento”.

Sobre a possibilidade de agregação de municípios, tal como aconteceu com muitas freguesias, o autarca mostra-se “liminarmente contra”. “Se alguém, um dia, vier com essa medida, metade do país fica despovoado, porque hoje o interior só sobrevive, e ainda vai resistindo, porque existem câmaras municipais, senão já tinha fechado”.

Quanto à descentralização de competências, diz-se “a favor e não só no discurso”, já que, desde 2013, transferiu competências para as freguesias. “Quanto mais próximo estiver o poder da decisão final, melhor é aplicado o dinheiro”, entende. Apesar de algumas reticências, e de ser um processo complexo, acredita que “este é um primeiro passo e depois vamos dar o segundo, com mais transferências, e espero que este governo continue a fazer isso”. Fernando Queiroga diz mesmo que o processo deveria ter ido mais além, dando mais poderes aos municípios, como para recrutar. “Na saúde foram-nos transferidos os encargos, somos os gestores de condomínio, se falhar um enfermeiro e um médico não podemos contratar, há pormenores em que devíamos ter mais capacidade”, aponta. “As coisas funcionam muito melhor”, afiança, dando como exemplo a educação, que “está a quilómetros de distância” em relação ao que estava.

CRIAÇÃO DE EMPREGO

Do que mais se orgulha é de “ajudar as pessoas e resolver os problemas”. “Fizemos obras de alguma envergadura, mas o gosto que tenho é esse e é o amargo de boca que levo, não poder continuar a fazer esse trabalho, de ter o poder de decisão para ajudar a resolver os problemas”.

Em relação às políticas implementadas, destaca a aposta na criação de emprego. “Conseguimos atrair empresas, com a criação de um regulamento próprio, a zona industrial não tinha uma empresa sequer e agora não temos lotes disponíveis”, afirma, adiantando que a expansão é um objetivo. “Só assim é que se consegue reter pessoas”, afirma, adiantando que muitas empresas do concelho estão a recrutar fora de Boticas. Diz que esse tema “é uma pedra no sapato”, porque apesar do esforço feito, não foi possível “estancar a saída de jovens”. “Naturalmente que mais teriam saído se não tivéssemos criado condições”, entende, destacando medidas como o apoio à natalidade, nos manuais escolares, nos transportes, nas refeições e nas bolsas de estudo.

Também o turismo foi uma aposta nos últimos anos, com a criação de infraestruturas, como o Parque de Natureza e Biodiversidade. “Tem vindo muita gente a Boticas, e criaram-se condições na restauração e hotelaria” para os receber. A agricultura mereceu também a atenção do executivo, com apoios ao setor. “Vivemos disto e temos produtos de excelência”. Enquanto autarca, destaca também o selo alcançado da UNESCO de Património Agrícola Mundial, único no país. “Não foi por acaso que o conseguimos, apostamos muito na agricultura e na floresta, em que tem havido um investimento significativo”, vinca.
Em contraponto, teve de enfrentar um projeto que vê como ameaça a estas atividades, a exploração de lítio em Covas do Barroso, admitindo que, a par da pandemia, foi a pior parte do seu mandato. “Tem-nos dado dores de cabeça, porque vai contra o projeto que temos para o concelho. A atratividade turística que implementámos pode ir por água abaixo, se isso foi avante”, o que ainda espera que não aconteça.

HABITAÇÃO

“Há falta de habitação e a que há é cara”, refere. O projeto para a criação de 45 fogos está concluído e em andamento. “Se não fizer o projeto, pelo menos fica pronto para quem vier a seguir”.

Já nas acessibilidades, a reivindicação da ligação à A24 é vista como “uma questão de direito” e na mobilidade a questão dos transportes é também uma preocupação, já que, com a nova legislação, as linhas não rentáveis para o operador podem ser extintas, a não ser que os municípios as comparticipem, o que é dispendioso. “Isso não se coloca no Porto e Lisboa, onde os passes são gratuitos, aqui temos de pagar. Continua a haver portugueses de segunda”.

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