Segunda-feira, 15 de Junho de 2026
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“O interior só sobrevive porque existem câmaras municipais, senão já tinha fechado”

À frente dos destinos da Câmara de Boticas há mais de 10 anos, Fernando Queiroga faz um balanço positivo deste período.

Admite que fazer juízo em causa própria “é sempre suspeito”, mas diz-se “satisfeito e realizado”, um trabalho recompensado com largas maiorias nas eleições.

A aproximar-se do final do último mandato, Fernando Queiroga afirma que ser autarca “é um trabalho honroso”, que lhe dá “muito gosto fazer” e diz mesmo que “não há cargo nenhum que dê mais realização pessoal do que ser presidente de câmara, porque temos o poder de decidir e fazer coisas”.

Considera que “em 12 anos não se consegue fazer tudo o que queremos”. Assim, e apesar de concordar com a limitação de mandatos, acha que seria preferível instituir dois mandatos de seis anos cada. “Dava tempo para fazer projetos com dimensão, obter vistos e pô-los em prática, porque os ciclos eleitorais cortam algum espaço temporal”, argumenta, além da poupança com menos um ciclo eleitoral.

DE SECRETÁRIO A PRESIDENTE

Foi secretário, adjunto e chefe de gabinete do presidente da câmara, passando depois a vereador e vice-presidente, mas garante que não pensava ser político quando era novo. “Se me perguntassem se sonhava ser presidente de câmara diria, taxativamente, que não. Não era o meu objetivo de vida”, assegura. Entrou “nestas lides” em 1996 e foi “subindo degrau a degrau” dentro da câmara. “Em 2005, o presidente da câmara de então convida-me para ser vereador e confesso que não estava à espera”. Foi “sem contar” que chegou a presidente de câmara em 2013.

Liderar uma autarquia do interior pode parecer menos complexo, mas Queiroga garante que “é muito mais trabalhoso”. “Pode pensar-se que uma câmara grande dá muito trabalho, mas não dá uma terça parte de uma pequena”, isto porque, conclui, naquelas há mais colaboradores e assessores do presidente, que “lhe fazem muito trabalho”. “Aqui, os recursos são poucos e a capacidade de recrutar é menor”, afirma, além de que a proximidade tem os dois lados da moeda. Nas grandes cidades, “as pessoas conhecem o presidente da televisão e dos jornais. Nós onde quer que estejamos, somos identificados, somos de cá, as pessoas falam connosco em qualquer sítio. Por mais pequeno que seja o problema, sabem com quem vão falar”.

E a porta está sempre aberta. “Desde que assumi este cargo não há dias de atendimento. Se estiver cá, faço sempre atendimento”.

Sobre a possibilidade de agregação de municípios, tal como aconteceu com muitas freguesias, o autarca mostra-se “liminarmente contra”. “Se alguém, um dia, vier com essa medida, metade do país fica despovoado, porque hoje o interior só sobrevive, e ainda vai resistindo, porque existem câmaras municipais, senão já tinha fechado”.

Quanto à descentralização de competências, diz-se “a favor e não só no discurso”, já que, desde 2013, transferiu competências para as freguesias. “Quanto mais próximo estiver o poder da decisão final, melhor é aplicado o dinheiro”, entende. Apesar de algumas reticências, e de ser um processo complexo, acredita que “este é um primeiro passo e depois vamos dar o segundo, com mais transferências, e espero que este governo continue a fazer isso”. Fernando Queiroga diz mesmo que o processo deveria ter ido mais além, dando mais poderes aos municípios, como para recrutar. “Na saúde foram-nos transferidos os encargos, somos os gestores de condomínio, se falhar um enfermeiro e um médico não podemos contratar, há pormenores em que devíamos ter mais capacidade”, aponta. “As coisas funcionam muito melhor”, afiança, dando como exemplo a educação, que “está a quilómetros de distância” em relação ao que estava.

CRIAÇÃO DE EMPREGO

Do que mais se orgulha é de “ajudar as pessoas e resolver os problemas”. “Fizemos obras de alguma envergadura, mas o gosto que tenho é esse e é o amargo de boca que levo, não poder continuar a fazer esse trabalho, de ter o poder de decisão para ajudar a resolver os problemas”.

Em relação às políticas implementadas, destaca a aposta na criação de emprego. “Conseguimos atrair empresas, com a criação de um regulamento próprio, a zona industrial não tinha uma empresa sequer e agora não temos lotes disponíveis”, afirma, adiantando que a expansão é um objetivo. “Só assim é que se consegue reter pessoas”, afirma, adiantando que muitas empresas do concelho estão a recrutar fora de Boticas. Diz que esse tema “é uma pedra no sapato”, porque apesar do esforço feito, não foi possível “estancar a saída de jovens”. “Naturalmente que mais teriam saído se não tivéssemos criado condições”, entende, destacando medidas como o apoio à natalidade, nos manuais escolares, nos transportes, nas refeições e nas bolsas de estudo.

Também o turismo foi uma aposta nos últimos anos, com a criação de infraestruturas, como o Parque de Natureza e Biodiversidade. “Tem vindo muita gente a Boticas, e criaram-se condições na restauração e hotelaria” para os receber. A agricultura mereceu também a atenção do executivo, com apoios ao setor. “Vivemos disto e temos produtos de excelência”. Enquanto autarca, destaca também o selo alcançado da UNESCO de Património Agrícola Mundial, único no país. “Não foi por acaso que o conseguimos, apostamos muito na agricultura e na floresta, em que tem havido um investimento significativo”, vinca.
Em contraponto, teve de enfrentar um projeto que vê como ameaça a estas atividades, a exploração de lítio em Covas do Barroso, admitindo que, a par da pandemia, foi a pior parte do seu mandato. “Tem-nos dado dores de cabeça, porque vai contra o projeto que temos para o concelho. A atratividade turística que implementámos pode ir por água abaixo, se isso foi avante”, o que ainda espera que não aconteça.

HABITAÇÃO

“Há falta de habitação e a que há é cara”, refere. O projeto para a criação de 45 fogos está concluído e em andamento. “Se não fizer o projeto, pelo menos fica pronto para quem vier a seguir”.

Já nas acessibilidades, a reivindicação da ligação à A24 é vista como “uma questão de direito” e na mobilidade a questão dos transportes é também uma preocupação, já que, com a nova legislação, as linhas não rentáveis para o operador podem ser extintas, a não ser que os municípios as comparticipem, o que é dispendioso. “Isso não se coloca no Porto e Lisboa, onde os passes são gratuitos, aqui temos de pagar. Continua a haver portugueses de segunda”.


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