Não quer dizer que os conceitos estejam mal atribuídos a Deus, poderão é ser mal interpretados e erradamente compreendidos. Há dias, numa conferência, o comentador e cronista João Miguel Tavares, que é católico praticante, chamava a atenção que a imagem de Deus como omnipotente ou todo-poderoso, omnisciente e omnipresente tem sido fonte de muitos equívocos e é lenha seca para o fogo do ateísmo. Aliás, algum ateísmo não é tanto não acreditar em Deus, mas não acreditar na imagem que as religiões fazem de Deus, onde abundam muitas inconsistências e incompreensões. Não faltará quem nos diga: se Deus é bom e tudo sabe e tudo pode, então como compreender as catástrofes naturais, o sofrimento e a morte? Como entender que Deus fique impávido e sereno diante de tantas injustiças e dramas existenciais que existem no mundo? Como compreender a existência do mal e como é que Deus permite o mal e deixa que ele prospere? Não há crente nenhum que não se sinta incomodado e um pouco perdido perante estas interrogações, pela forma como Deus é entendido. E aqui é que está o problema.
Quando muitos crentes invocam Deus como todo-poderoso e omnipresente pensam que Deus pode estar em todo o lado e pode intervir e agir onde quiser e tudo pode fazer, mas Deus não é assim. Muitos têm uma ideia intervencionista de Deus, um Deus que num estalar de dedos pode evitar um acidente, interromper uma tempestade ou evitar um terramoto, e se Deus não o faz é porque está a ajustar contas e as pessoas estão a ter o devido castigo por aquilo que merecem. Um Deus assim só pode ser fonte de muitos mal-entendidos e de ateísmo.
O Natal obriga-nos a purificar as imagens erradas que fazemos de Deus, a quem nós atribuímos a força que tudo pode esmagar e o poder que tudo pode, e não conseguimos pensar Deus senão revestido de grandeza e de poder máximo e absoluto. Contemplando um Deus que se dignou ser uma frágil criança nos braços de uma mulher, Deus desarma-nos, já nem falo da cruz. Deus também é frágil, mas é acima de tudo amor que se faz presente e acompanha, a quem nada é impossível, não porque tenha uma força desmedida, mas porque está e ama sempre. Diz o Papa Francisco: “O que distingue o juízo de Deus do nosso juízo não é a omnipotência, mas a misericórdia. Em Jesus aprendemos que Deus é todo-poderoso no amor e na misericórdia.”




