Há uns anos atrás não haveria casa cristã que não cumprisse religiosamente a feitura do presépio, chamando-se atenção de que celebramos o nascimento de Jesus, e havia o preceito sagrado de nunca faltar à missa de Natal para se adorar o Menino e louvar a Deus pelo seu amor e salvação. Tudo isto está a diluir-se. Estamos num processo revolucionário de esvaziamento do natal cristão, trocando-o por uma difusa e oca festa lúdica, comercial, consumista, ruidosa, fantocheira, encenada de boas intenções e propósitos que rapidamente vamos esquecer, apalhaçada com muitos enfeites e maquilhagens, uma festarola vã para comer e beber, para nos entretermos um punhado de dias e dizermos coisas simpáticas uns aos outros, e fazermos de conta que somos todos muito felizes. Mas tudo soa a artificialidade, porque na verdade não passa de um circo sem o acolhimento do Deus Menino e da sua mensagem e sem verdadeiro encontro com os outros.
A grande figura do Natal, Jesus Cristo, fica na sombra, é arrumado a um canto. Claro, incomoda, obriga a refletir, obriga a mudar, questiona a vida, exige compromisso e transformação, mas isso é pedir de mais aos confusos e acomodados tempos que vivemos.
Ele que é a grande figura e o fundamento do Natal está a ser reduzido ao anonimato, cumprindo-se a sina evangélica de continuar a não ter lugar no coração dos homens e mulheres de hoje e ser atirado para a marginalidade da história e do tempo. Pergunta-se a jovens e crianças o que é o presépio e por que existe o Natal e ficamos um pouco abismados com a refinada ignorância que por aí anda.
Interessante é escutarmos o argumento de que se deu esta roupagem ao natal em nome da inclusão, o que uma cultura muçulmana ou judaica jamais faria, para que o Natal não seja ofensivo, não provoque divisão nem constrangimento, seja uma festa “universal”, de vaga fraternidade, que não incomode ninguém e a todos possa integrar. Ou seja, uma inclusão pela negativa, uma festa de ideias e desejos muito consensuais, de sentimentos bonacheirões e cândidos que as misses mundo dizem, obrigando-nos a esconder as nossas convicções, os nossos símbolos e valores que fundaram a nossa cultura. Isto não é verdadeira inclusão, mas autoexclusão ou aparente inclusão.
Nunca há verdadeira inclusão quando eu tenho de esconder a minha identidade, as minhas convicções e a minha cultura.




