Segunda-feira, 23 de Maio de 2022
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O povo está a desaparecer?

Antigamente dançava-se e cantava-se nas eiras, nos largos da aldeia ou mesmo em casas particulares.

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Alguns temas eram ligados à fonte da aldeia, lugar de encontro entre namorados. Outros, eram brejeiros que faziam corar as donzelas mais tímidas e envergonhadas…

O povo cantava, ria e bailava. Impunha-se nas suas simplicidades e brejeirices, nas danças de roda, de maldizer da mulher para o homem e o homem teimando-se nos versos atacava em refrões adequados.

Havia cantigas de roda para muitas situações na relação homem, mulher, quando ambos laboravam nas escamisadas das terras do mesmo patrão, isto quando havia autorização para a mocidade se divertir e fazer brincadeiras pela noite dentro, sem escandalizar.
No mês de maio havia a sacha do milho e esse trabalho era feito por ranchos de mulheres, solteiras ou casadas, com leiras lado a lado, com enxadas rasas e bons dedos para arrancar a milha, sem magoar o milho.

Durante o trabalho os ranchos iam exibindo cantigas, umas em desafio, outras dedicadas aos patrões, outras ainda apenas para alegrar e ajudar a passar o tempo, diminuindo o esforço da azáfama, de vez em quando o aguadeiro fazia passar o barril da pinga ou a cabaça para dessedentar as trabalhadoras e permitir uma pausa para endireitar as costas.

Por vezes, o almoço e a merenda eram dados pelo dono e quem os trazia era a patroa na sua poceira branca à cabeça.

À noite despegavam e voltavam para casa, cantando toadas soltas pelo caminho…
“Lá vem a poceira, lá vem a patroa, Deus queira que ela traga merenda boa.”

Cantava uma delas ainda a saborear a farta posta de bacalhau e uma pinga de arregalar o olho, tão grande a posta que dentro da saca levava metade para o homem tolhido pelas bebedeiras e para os dois fedelhos que em casa esperavam ansiosos pelo petisco…

Nos anos 50, no mês de janeiro, tocava o búzio e um rancho de gente partia para o Barreiro, perto de Guiães do Douro. Iam para a apanha da azeitona num grupo numeroso que se punha a caminho ainda as estrelas luziam no céu. Esse trabalho de várias semanas era árduo pelo frio mas suportado por cantares alusivos à faina:
“Adeus mulher, adeus casa, vou prá azeitona neste rancho azeitoneiro, adeus, adeus, já toca o búzio, vou-me embora companheiro…”

Hoje a cultura popular quase não se pratica, este tempo está submetido às tecnologias mais avançadas e, dentro de pouco, é quase certo que iremos para qualquer lugar voando como pássaros…

Recolher e preservar a cultura popular, é um imperativo que se impõe a todos. É urgente reavivar o património das tradições que os nossos antepassados com distintas e valentes dificuldades souberam engrandecer.

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