Quinta-feira, 7 de Julho de 2022

O Referendo e a Igreja

O resultado do referendo, pese embora toda a insuficiente legitimidade do “sim”, representa um considerável desconforto para a Igreja. A cultura, a moral e a forma de ser e estar na vida, assumidas e defendidas pela Igreja Católica, foram postas em causa; pelo menos, a sua mensagem não chegou!.. Importa, por isso, fazer uma reflexão […]

O resultado do referendo, pese embora toda a insuficiente legitimidade do “sim”, representa um considerável desconforto para a Igreja. A cultura, a moral e a forma de ser e estar na vida, assumidas e defendidas pela Igreja Católica, foram postas em causa; pelo menos, a sua mensagem não chegou!.. Importa, por isso, fazer uma reflexão sobre o que se passou e saber quem não cumpriu com a sua obrigação.

Naturalmente que uma grande maioria apontará o dedo à hierarquia da Igreja!.. Sim, de facto, foi mais que evidente a falta de empenhamento activo dos nossos sacerdotes e de alguns bispos, o que originou muita perturbação e confusão na cabeça de muitos leigos, já por si fortemente carenciados de uma desejada formação cultural e religiosa. A própria Conferência Episcopal, reunida logo após o referendo, acusou o toque, mas já nada se pôde fazer, porque o referendo já passou…

E este facto não passou despercebido aos grupos anticlericais que, na noite do referendo, cedo se apressaram a agradecer, cinicamente, o voto dos “numerosos católicos”… Quem viveu de perto e intensamente a angústia de uma campanha a favor da vida e dos ideais do Evangelho, pôde bem testemunhar que, efectivamente, muitas pessoas que se dizem católicas e que até vão à sagrada comunhão, votaram a legalização da morte dos nossos irmãozitos indefesos.

Então, não é o Cristianismo a religião da cruz e dos mártires? Onde estão eles? Porquê tanto medo? Será que, hoje, há menos liberdade do que nos tempos em que os cristãos viviam e celebravam nas catacumbas? Penso que não, embora reconheça muitas afinidades com esse tempo…

Tal como os mártires desse tempo, que deram a vida pela mensagem de amor e de salvação do homem, protagonizada por Jesus Cristo, também ao cristão de hoje se exige a mesma força e a mesma coragem, na defesa dos ideais de Cristo que são a defesa do homem e da vida… A sacralidade dos nossos princípios e valores e a firmeza das nossas convicções são suficientemente fortes e inabaláveis, para não nos sentirmos reféns, seja de quem for… A este respeito, permitam-me lembrar aos meus irmãos cristãos e católicos que, quando a “culpa” é virtude, o padecer é glória!.. Ouvimos, na missa do dia do referendo, o Evangelho dizer: “Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir”. Não direi nenhuma blasfémia, se daqui inferir: “Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis!..”.

Muitos dos que votaram “sim”, no referendo, viverão tempo suficiente para virem a lamentar a sua escolha, quando virem, com os seus olhos, e sentirem, na sua alma, as consequências nefastas e desastrosas de uma cultura de morte. A estes irmãos, aconselharia uma reflexão profunda e séria, no sentido de verificarem se algumas opções da sua vida estão ou não conformes os ditames da Fé que julgam e dizem professar e praticar.

Entretanto, a vida não pára!.. São inúmeros os motivos que sustentarão uma alicerçada tese de defesa da vida, assim como são inúmeras as instâncias capazes de defender o princípio constitucional de que “a Vida Humana é inviolável” (Art. 24 e 25 da Constituição da República Portuguesa e arts. 1, 2 e 3 da Carta dos Direitos Fundamentais da Pessoa Humana da União Europeia).

As dezenas de instituições existentes – e a criar – a favor da Vida, e os milhões de cristãos anónimos continuarão a trabalhar, no sentido de dar mais vida à Vida, na firme convicção de que a Igreja, mesmo aparentemente “derrotada”, mostrará, sempre, o Caminho da Verdade e da Vida!..

 

*(Mestre em Bioética)

-PUB-

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