Quinta-feira, 29 de Julho de 2021
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Os loucos e doentes gostavam de festas

Corria a década dos anos 30 e a Banda de Mateus foi a pé fazer um serviço em Cedovim, freguesia do concelho de Vila Nova de Foz Côa

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Saíram no final da tarde do dia anterior e só haviam de chegar à festa por volta das 10 horas…A viagem era percorrida por toda a espécie de peripécias e medos…Alguns músicos levavam lampiões para afugentarem possíveis animais perigosos, como lobos e cães famintos. As pernas de alguns, ao fim de dezenas de quilómetros, negavam-se-lhes a andar e o peito dos mais velhos arfava de cansaço e angústia.

Também havia alegrias, brincadeiras e maroteiras. Um músico mais atrevido foi mesmo ao ponto de escorropichar as tetas de uma cabra para dela obter uma malga de leite, outros o quiseram imitar mas o dono impôs-se e ripostou com um varapau e alguns palavrões….

Quando os músicos chegaram ao recinto, já a centenária coletividade de S. Mamede de Riba Tua os esperavam para iniciarem a arruada. Havia sempre meninas que aguardavam os músicos e algumas olhavam com apetites gulosos um ou outro mais sedutor.

O insólito havia de chegar à noite nos coretos em pleno arraial…por volta das 23 horas, o povo distraía-se das bandas olhando para os telhados e árvores…Um homem que mais parecia um macaco saltava de telhado em telhado, de ramo em ramo, atirava-se para o chão, caindo a quatro patas como um gato, corria como um galgo, galopava e saltava, gritava e uivava. O homem tinha sido acometido por um ataque provocado por uma doença que nunca foi descoberta… neste período ficava perigoso, ganhando energias inexplicáveis…depois do ataque que demorava cerca de dois minutos, levantava-se como se nada tivesse acontecido e ficava um ser normal…

Mas aquela espécie de macaco gostava de música de bandas filarmónicas e enquanto uma delas tocava uma rapsódia galvanizante, empoleirado em cima de uma árvore, a criatura dá guinchos e uivos, levando alguns músicos a risos e esgares de troça. Acrobaticamente salta de cima da árvore e como gato assanhado arranha aqueles que dele fizeram troça e dá coices no bombo rebentando-lhe implacável as peles.

 Quando as bandas já se preparavam para regressarem a casa, a criatura subiu ao pelourinho no meio do recinto com a cabeça para baixo e as pernas para cima. Quando chegou ao alto fez o pino para espanto de todos os músicos e o magote de povo presente.

O regresso a casa foi colorido de espanto e mistério. Soava agora aos ouvidos de cada um, um modo bem diferente e trágico da vida de seres que nasceram na sina do sofrimento e do desdém dos outros…Era preciso que em toda a humanidade houvesse uma chama de luz, um sorriso como sopro de vida abençoado na misericórdia de Deus. Depois desse dia, os músicos não mais deixaram de pensar naquele homem estranho e doente que sentia na vibração dos sons uma certa razão da sua existência, uma força que lhe iluminava o sentido da vida.

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