Quinta-feira, 7 de Julho de 2022
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Palmas nos comícios

Uma das fórmulas mais estudadas na gestão da carteira de investimentos de risco é a fórmula de Kelly. Esta fórmula indica que em situações arriscadas devemos apostar mais se esperamos um retorno maior ou se a probabilidade de sucesso também for maior. 

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No entanto, está provado que esta fórmula conduz muito depressa a ficarmos milionários ou a ficarmos sem nada. Como leva a que as pessoas invistam muito quando estão cheias de confiança, faz com que muito se perca quando se aposta no cavalo errado, na ação errada, ou na ‘odd’ incorreta.

Os gestores prudentes usam mecanismos de desconto que fazem com que a probabilidade de sucesso não pareça tão alta nem o retorno se afigure tão generoso. Os gestores ‘all-in’ apostam tudo e no fim pedem a nacionalização do banco.

Dada a proximidade das campanhas autárquicas, este problema coloca-se a cada eleitor. E se existe uma questão que vem tirando o sono a muitas pessoas é “Quantas palmas devo bater no comício do Candidato A?” e/ou “Quantas palmas devo bater no comício do Candidato B?” Ou Candidato C, D e E?

Pois bem, se a confiança na vitória do A for grande e o retorno que espera (por exemplo, uma nomeação, uma assessoria, ou um lugar de quadro) for também grande, deve apostar muito. Deve bater muitas palmas no comício do A, deve levar bombos e famelga, até deve organizar a campanha dele. Obviamente, sobrar-lhe-ão poucas palmas para o candidato B, para o C, ou para o D.

Mas se a confiança na vitória do A for baixa e/ou se não esperar grande coisa das promessas dele (ou dela), então deve bater poucas palmas no comício do A. Não vá colocar todas as fichas na casa errada e sair-lhe a do lado. Aí, como bom investidor que não coloca os ovos no mesmo cesto, deve guardar umas palminhas para outros candidatos: comece por guardar algumas para os da sua cor política nos concelhos vizinhos, depois para os da vizinhança ideológica do seu concelho, e por fim, aposte às cegas algumas palmas. Por vezes, as gerigonças ganham, o Tondela empata, e o burro cansado chega ao fim na corrida da Almodena.

O problema com esta fórmula é que depressa ficará milionário em termos políticos, colecionando um excelente capital político, ou então ficará um pária e terá de procurar alojamento político, camarário ou até social nos territórios vizinhos.

Na realidade, como tenho vindo a analisar, as eleições mexem com as migrações a nível europeu. E se em anos de eleições normais a taxa de emigração abranda, já dois anos depois, com as nomeações feitas e alguns contratos resolvidos, a emigração tende a aumentar. Porque uma das belezas da vida eleitoral democrática é a de gerir ciclos de sonho e de esperança, intercalando-os com os de desilusão e deceção. Afinal, há ciclos políticos nas migrações. Para lá, das migrações dos lugares de vereação, nomeação e assessoria.

Portanto, quantas palmas vão bater em cada comício?

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