Domingo, 18 de Janeiro de 2026
No menu items!
Ontem & HojePerdidas 101 vidas que não chegaram a ser adultas

Perdidas 101 vidas que não chegaram a ser adultas

1969: um desastre na guerra, em Moçambique

-PUB-

As novas gerações não têm conhecimento das razões reais que levaram à guerra nas antigas possessões portuguesas de África (e, mesmo antes, da Índia). De igual modo, não conhecem tudo o que aconteceu nesse período tremendo que custou a Portugal tempo (para o seu cabal desenvolvimento), dinheiro (sustentar as tropas tão longe de casa era caro e difícil) e, sobretudo, as vidas da juventude, já que foram milhares as que se perderam no meio do capim, do mato, da floresta, nos rios e nas estradas (“picadas”, conforme se chamava a esses troços perigosos, na altura). Em junho de 1969 aconteceu, no rio Zambeze, o maior acontecimento nefasto para as tropas portuguesas.

Nos dias de hoje temos informações sobre guerra que nos descrevem processos muito diferentes dos que havia antes. Poderemos comparar a guerra do chamado ultramar português com a que está a acontecer atualmente na Ucrânia. E as diferenças são muitas.

A guerra atual parece um jogo de consola

As diferenças começam no tempo em que ocorrem, nos territórios em que os exércitos se movimentam, os equipamentos, o tipo de armamento (leve ou pesado), a nova realidade do perigo de uso de bombas (“mísseis”) nucleares e químicos, o facto de esta não ser de “guerrilha”, não envolvendo movimentos de libertação e até no impacto que tem perante a comunidade internacional, envolvendo outros países periféricos, organizações internacionais como a ONU ou a NATO, a vigilância mais agressiva dos Estados Unidos e da União Europeia. Com efeito, a guerra, agora, tem outras caraterísticas, outras plataformas, outros desígnios, é mais mediatizada, os confrontos são mais contundentes, é acompanhada hora a hora pelos meios de comunicação (especialmente pelas televisões que nos mostram imagens constantemente, exaustivas, em tempo real ou repetidas, espremidas até ao tutano).

Para as novas gerações, a guerra atual parece um jogo de consola, daqueles que usam e de que até abusam dentro de casa. Só que, antes, não era assim. No caso da guerra colonial portuguesa, não havia invasões externas, a luta era desenvolvida por movimentos formados no interior da Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola ou Moçambique. Era uma guerra de várias frentes, minada por ações de terrorismo. A guerra da Ucrânia tem como ponto de partida uma invasão de um país sobre outro quase fraterno porque já pertenceu, durante anos e gerações, à mesma “Mãe Rússia” que caraterizava os vastos horizontes de uma verdadeira potência mundial, respeitada e temida.

“Dia 21 de junho de 1969, ocorreu a maior mortandade, em Moçambique, na travessia do Rio Zambeze. Morreram 108 dos 150 militares que partiram de Lourenço Marques, destinados ao norte daquela ex-Província Ultramarina. Essa companhia tinha partido da capital, rumo à rendição de outro agrupamento que terminava a comissão de serviço”.
(Barroso da Fonte, em “A Voz de Trás-os-Montes”, em 23 de junho de 2022)

Abrandamento marcelista na Censura

As notícias da guerra que se travava nos territórios ultramarinos eram crivadas até à última letra pela Censura que abafava o país. Mas, em 1969 já o regime tinha tido uma “abertura” com a “Primavera Marcelista”. A Censura tornara-se “Exame Prévio”, a PIDE era a “Direção Geral de Segurança” e a Educação beneficiava da reforma de Veiga Simão, na sequência estudantil coimbrã desse ano. Também as notícias dos jornais mudaram um pouco, mostrando mais sem ser necessário escrever e, sobretudo, ler nas entrelinhas. Daí que o jornal “Diário de Lisboa” tenha dado ênfase maior ao desastre, apresentando uma manchete a ocupar todas as colunas da sua primeira página: “101 militares desaparecidos no desastre do Zambeze”. Era um alarme para os portugueses que estavam mais habituados às notas informativas menos enfáticas dos Serviços de Informação Pública das Forças Armadas (única entidade a quem era atribuída a tarefa de noticiar factos que envolvessem mortes dos combatentes portugueses sem causar alarme na chamada opinião pública).

“Grupos de salvamento continuam a procurar, na densa floresta, a norte da Beira, soldados portugueses que desapareceram no sábado, à noite, quando a barcaça em que seguiam se voltou, no rio Zambeze. Os desaparecidos faziam parte de uma coluna militar de 150 homens. As buscas estão a ser feitas em pirogas”.
(“Diário de Lisboa” de 25 de junho de 1969)

A maior tragédia da guerra do ultramar

O jornalista colaborador deste jornal, João Barroso da Fonte, conhecendo os meandros em que as situações de tropas acontecem – por também ter integrado o Exército português nessa época – tem falado nesta “maior tragédia da guerra do ultramar”, dando conta de pormenores que contribuíram para o desastre.

“Quatro pelotões partiram de Lourenço Marques sob o comando de um simples alferes miliciano, de nome Rosário (nota: o “Diário de Lisboa” aponta o nome completo desse militar que também morreu nessa ocasião: Óscar Daniel Firmino Rosário). Estava previsto liderar essa responsabilidade um capitão que, à última hora, não pôde seguir. Esse alferes acabaria por confrontar-se com a travessia no batelão de Chupanga para Mopeia. O batelão chamava-se São Martinho e era propriedade privada de Amâncio Pereira”.
(João barroso da Fonte)

O jornal “Diário de Lisboa” a que estamos a referir-nos (e cujo frontispício publicamos neste trabalho) mostra uma fotografia desse batelão que estabelecia ordinariamente a comunicação entre os distritos de Manica e Sofala e da Zambézia, ligando através do grande rio, Chupanga, na margem direita, e Mopeia, do lado norte do Zambeze. Nesse dia, o proprietário (que seguia no batelão e que também desapareceu nas águas, juntamente com quatro tripulantes dos oito que compunham a tripulação) deu ordem de partida, depois de o contingente militar ter aguardado, na margem direita, junto da missão católica de Chupanga, seis dias até que fosse possível fazer a travessia.

Ao ver o batelão, o alferes Óscar Rosário perguntou se aguentaria com o peso de tantos homens e ainda algumas viaturas (Barroso da Fonte afirma terem sido trinta), sendo-lhe respondido que já antes teria sido utilizado com peso de cargas e de pessoas muito superiores. Tudo preparado, o batelão partiu. Já no meio do rio, o vento que se fazia sentir fez virar o batelão que adornou. Não demorou, sequer, um minuto a afundar.

“O naufrágio deu-se quando o batelão começou a adornar, afundando-se rapidamente, parecendo que a causa se deve à má navegabilidade da embarcação. Entre os desaparecidos conta-se o único oficial, um alferes miliciano que comandava os soldados, alguns dos quais eram do recrutamento da província”.
(“Vida Mundial”, de 4 de julho de 1969)

Não deixa de ser irónico que quando os Serviços de Informação Pública das Forças Armadas substituíam a morte em combate de soldados portugueses por morte em acidentes de viação (desse modo fazendo baixar os valores das estatísticas de mortes pela ação dos guerrilheiros do MPLA, da FRELIMO ou do PAIGC) fosse, de facto, um acidente de viação fluvial a causar a morte de uma centena de militares que incluía um furriel miliciano, alguns cabos e a forte maioria de praças, de recrutamento da metrópole e de outro recrutamento provincial de Moçambique. Todos ali tiveram terminadas as suas vidas que não chegaram a ser adultas.


O que é um Batelão?

Segundo a “Grande Enciclopédia Universal”, um batelão (do italiano bottelone) é uma grande barca, geralmente sem motor, utilizada no transporte de objetos muito pesados. O “Elucidário da Língua Portuguesa” acrescenta que é uma espécie de jangada com chão plano, sem calado, de proa estreita em quilha e popa larga aplainada, sem proteções laterais, por não ser recomendável para transporte de pessoas e animais e para permitir fáceis colocações de objetos pesados e de grande volumetria no seu interior ou no exterior da embarcação. Não pode ser utilizado em mar, devido ao balanço que lhe é causado pelas ondas, sendo mais utilizada em vias fluviais, aproveitando as correntes para a sua deslocação. É conduzido com o auxílio de leme curto e remos, assim como grandes varas rijas que a faz afastar das margens.

APOIE O NOSSO TRABALHO. APOIE O JORNALISMO DE PROXIMIDADE.

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo regional e de proximidade. O acesso à maioria das notícias da VTM (ainda) é livre, mas não é gratuito, o jornalismo custa dinheiro e exige investimento. Esta contribuição é uma forma de apoiar de forma direta A Voz de Trás-os-Montes e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente e de proximidade, mas não só. É continuar a informar apesar de todas as contingências, nunca paramos um único dia.

Contribua com um donativo!

VÍDEO

Mais lidas

PRÉMIO

ÚLTIMAS NOTÍCIAS