Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Portugal e a Grande Guerra

No âmbito do centenário da Grande Guerra, que decorre de 2014 a 2018, a Liga dos Combatentes tem vindo a desenvolver várias atividades das quais não posso deixar de destacar, pela sua elevada capacidade de análise e rigor histórico, a conferência proferida pelo Coronel Américo Guimarães Henriques, no dia 23 de abril do ano transato, no Museu do Combatente, no Forte do Bom Sucesso, intitulada “A GRANDE GUERRA – A motivação política e estratégica nacional para a entrada no conflito em Africa e França – Consequências”.

O ilustre conferencista começou por enfatizar a instabilidade reinante na sociedade portuguesa, referindo que em 16 anos de regime republicano houve 48 governos. Os principais partidos políticos, designadamente, o Partido Democrático de Afonso Costa, o Partido Evolucionista de António José de Almeida e o Partido Unionista de Brito Camacho, para além das questões relacionadas com o dia a dia da governação do país, não se entendiam quanto à solução a adotar, sobre a participação de Portugal no conflito.

Abordou, depois, o entendimento existente entre a Alemanha e a Inglaterra, quando em 1912, tinham combinado, entre si, dividir o Império Português. Essa ameaça latente constituía uma preocupação permanente, quer para os chamados africanistas (partidários da defesa do Império), quer para os intervencionistas (partidários da nossa participação em França) que, curiosamente, forçavam a intervenção na Europa com a mesma justificação daqueles, ou seja, de que isso iria também contribuir para a salvaguarda dos interesses portugueses em África. Os argumentos a favor ou contra dividiam os portugueses. Algumas elites defendiam a nossa participação, apresentando os seguintes motivos: obrigação moral, histórica e política de defender o Império; fortalecer a República, perante uma Europa maioritariamente monárquica; afirmação perante uma Espanha, onde Afonso XIII apostava numa neutralidade colaborante com a Alemanha e finalmente sentar-se à mesa com os vencedores. Por outro lado, os chamados africanistas defendiam a nossa presença em Africa, para defender o Império sim, mas opondo-se à participação no conflito europeu com o argumento de que França não nos dizia nada. Na ausência de um consenso nacional que definisse claramente a posição portuguesa perante a Triple Alliançe, foi Norton de Matos, na qualidade de Ministro da Guerra, que no Parlamento, num discurso memorável defendeu a nossa ida para a Guerra dizendo que África era vital para a sobrevivência da Nação, se não participássemos nela os vencedores partiriam o Império Português aos bocados, ficando célebre a seguinte frase: “a Pátria defende-se e não se discute”.

Finalmente o Coronel Guimarães Henriques referiu que apesar das grandezas e misérias, que envolveram os nossos compatriotas, agravadas pela crítica social e repulsa política que enfrentaram, a sua participação contribuiu para fazer deles homens corajosos que lutaram, de olhos nos olhos, contra o melhor exército do mundo.

Não posso deixar de registar que dos milhares de combatentes portugueses que tombaram ao serviço da Pátria, um cidadão natural de Guiães, meu conterrâneo, pereceu nesse conflito, o 1.º Cabo Miguel Marta, cujos restos mortais repousam ao lado das 1830 sepulturas de camaradas seus, no Cemitério Militar Português de Richebourg de L´Avoué, no norte de França. Na Câmara Municipal de Vila Real, o seu nome figura também na lápide colocada na fachada principal, em conjunto com o de outros naturais do concelho vila-realense.

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