Terça-feira, 18 de Junho de 2024
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Manuel R. Cordeiro
Manuel R. Cordeiro
Professor Catedrático aposentado da UTAD

Tempos duros

Hoje, vou falar-vos das pessoas idosas e do quanto sofreram durante este tempo.

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Tenho esperança de que estamos próximos de uma situação normal, para podermos levar uma vida normal, como pessoas normais que somos. Têm sido tempos muito difíceis com consequências que ainda não conhecemos, mas que aparecerão certamente, no futuro.

Torna-se necessário recuperarmos hábitos para termos uma vida social normal, como seja, cumprimentarmo-nos como antes do vírus aparecer. Darmos carinho aos filhos, aos netos, aos pais, aos irmãos e aos amigos. Só quando fizermos tudo isto, é que podemos dizer que passámos a ter de novo uma vida normal.

Numa apreciação geral sou de opinião que tivemos um comportamento adequado e que muito contribuiu para que possamos dizer que valeu a pena. No entanto, é nosso dever continuar a cumprir o que nos for pedido.

Hoje, vou falar-vos das pessoas idosas e do quanto sofreram durante este tempo. Até ao dia 27 de março morreram, em Portugal, 16827 pessoas, em consequência da COVID-19, das quais 14663 tinham idade ≥ 70 anos. Em percentagem o valor é de 87%. Trata-se de valores muito altos. Se considerarmos os que morreram com 80 anos ou mais, vemos que são 11094 o que representa 66% em relação ao total de mortes. Vou concentrar a minha análise neste último valor, já que é nesta idade que se procura arranjar um Lar para os nossos familiares. Não tenho qualquer dúvida de que os lares, como instituições que os acolhem, têm um papel muito importante nos dias de hoje. Muitas famílias não têm condições para lhes dar um fim de vida com saúde, carinho e amor. Felizmente, em muitos lares eles encontram esses requisitos. Apesar de não ser a sua casa, são bem tratados.

Espero que os responsáveis pelos muitos lares que existem em Portugal, saibam corresponder à expetativa que eles têm quando neles ingressam.
Dos governantes espero que tirem ensinamentos daquilo que se passou. Lembrem-se que dar boas condições aos nossos idosos é obrigação do Estado, mesmo que isso custe muito dinheiro.
Vou agora falar-vos do que tem sido a minha experiência. O meu pai faleceu aos 84 anos e, sinceramente, não vivi com intensidade os seus últimos anos, por me encontrar longe de casa no exercício da minha profissão. Sei que foi muito bem tratado. A minha sogra passou os últimos três anos da sua vida comigo e com a minha esposa, na casa que era deles.

Faleceu com 92 anos. O meu sogro faleceu com 98 anos e esteve sempre connosco. A minha mãe faleceu com 94 anos em casa da minha irmã.

O convívio que tivemos nos últimos anos das suas vidas, permitiu criar uma profunda amizade entre nós e eles. A minha sogra faleceu com uma grande admiração por mim, conquistada com o que eu a ajudei e com o carinho com que a tratei. Ao meu sogro dei muitas vezes água, que ele me agradecia com o olhar, pois já não falava.

Em relação à minha mãe, por quem tenho uma grande admiração que me acompanhará sempre até ao fim da minha vida, estive sempre presente, apesar de muitas vezes me ser muito difícil. Dormi várias vezes no seu quanto, umas vezes num sofá, outras na segunda cama, para que ela não se sentisse só. O pavor que ela tinha de morrer fora da sua casa, demonstrava-o bem quando pedia para não a levarmos para longe. Aos que faleceram nesta pandemia, espero que Deus os tenha em descanso.

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