Terça-feira, 27 de Julho de 2021
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Uma tragédia antiga

Não obstante, o esforço de todos que, denodadamente, iam atirando para cima das labaredas toda a água que conseguiam acartar, não conseguiram evitar aquela tragédia humana”

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Naquele ano, andaria eu pelos 10 ou 11 anos, o dia amanheceu igual a tantos outros, com a população da aldeia dedicada ao amanho das suas courelas, ou trabalhando à jorna nos terrenos agrícolas dos lavradores locais. Porém, a rotina diária, desses tempos, foi bruscamente interrompida com a deflagração de um incêndio de consequências nefastas e devastadoras para a família Sobiu.

Esse infausto acontecimento, que permanece ainda bem vivo na minha memória, ocorreu numa casa modesta, localizada no Cabo da Rua, num pequeno beco sem saída, em Guiães, tendo como desenlace fatal a morte de duas crianças, que pereceram carbonizadas. Uma desgraça assim, nunca antes se tinha visto por aqueles lados. Naquela época, a freguesia de Guiães, vivia como que em circuito fechado, constituindo uma espécie de microcosmos no seio do mundo rural. Distante da sede de concelho, situada no extremo sudoeste/sudeste, fazendo fronteira administrativa, respetivamente, com os concelhos de Peso da Régua e Sabrosa, era uma situação que, agravada com a ausência de vias de comunicação capazes, não permitia a rápida deslocação dos Bombeiros da Bila para acorrerem àquela ou outras desgraças semelhantes. Na circunstância, logo que foi detetado o fogo, a solidariedade daquela gente funcionou em pleno, acorrendo novos e velhos, ao som do sino tocado a rebate, com todo o tipo de vasilhame (cântaros, baldes, canecos, regadores, alguidares, etc.) para debelar as chamas que incessantemente consumiam os parcos haveres daquela pobre família. As duas fontes públicas existentes, a Fonte do Senhor e a localizada no centro da povoação, não chegavam para as encomendas. Por isso, num gesto altruísta e solidário, o Sr. Manuel Emílio, abastado proprietário, que morava na vizinhança, colocou o lagar, destinado à pisa das uvas, que possuía no seu armazém, sempre atestado de água, à disposição dos populares que não se cansaram de, num movimento de vaivém constante, transportar as suas vasilhas carregadas com o precioso líquido para tentar dominar aquele inferno.

Não obstante, o esforço de todos que, denodadamente, iam atirando para cima das labaredas toda a água que conseguiam acartar, não conseguiram evitar aquela tragédia humana.

Infelizmente tudo foi em vão. No dia seguinte, naquele amontoado de destroços, jaziam os cadáveres de duas crianças carbonizadas, sendo sepultadas no cemitério da freguesia, no talhão dos anjinhos, numa cerimónia fúnebre com a presença de toda a população, numa grande manifestação de pesar e consternação.

O desgosto provocado foi tão grande que, mais tarde, aquela família, acabou por emigrar para França, sem nunca mais ter voltado à sua terra de origem.

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