O poema, que não deixa de ser uma oração, é um louvor, um hino de gratidão a Deus pela beleza da criação e seus elementos: o sol, a lua, a água, o fogo, a mãe terra, o homem e até a morte, chamada “irmã”, pois também faz parte do percurso do homem para Deus. É um texto fundamental para a espiritualidade franciscana.
O poema já foi analisado de vários ângulos, por vezes até foi visto como um manifesto para se regressar à inocência original e ao paraíso perdido, com laivos de ingenuidade. A verdade é que o poema vai ter uma repercussão no mundo, que, possivelmente, jamais S. Francisco imaginou. Foi profundamente inovador e propulsou uma nova compreensão dos seres e das coisas, levando a uma nova visão da vida e do mundo e a mudanças sociais. Ao manifestar o desejo portentoso de fraternidade entre todos os seres vivos, homens, astros, animais, vegetais e outras criaturas, S. Francisco promove uma visão bondosa do mundo e suas forças. O mundo, o cosmos, deixa de ser visto como um espaço hostil, um lugar de forças ameaçadoras e tenebrosas, como então se pensava, mundo onde o homem teria de lutar pela sua sobrevivência, mas, pelo contrário, todas as coisas assumem um rosto maravilhoso de bondade, bondade que o homem deve acolher e cuidar. Todos os elementos da natureza são irmãos, fruto de uma única fonte de vida, Deus criador. Assim sendo, deve imperar a reconciliação e o amor e não a vontade de usar, dominar, anexar e destruir.
Por outro lado, pelo seu Cântico das Criaturas, S. Francisco propunha, ou acabou por propor, uma revolução para o seu tempo, era preciso levar a cabo uma inversão em todos os campos, cósmico, religioso, político, social e económico, que tinham uma configuração piramidal e hierárquica (dominadores e dominados, pobres e ricos, nobres e comuns, senhores e vassalos, donos e servos, importantes e não importantes), apelando a mais igualdade e respeito por tudo e por todos. É assim contestada a autoridade feudal e eclesiástica que reinava e reclamada uma ordem nova em que todo o ser humano é fonte de direitos.
Se Deus criou todos os seres humanos, então todos têm a mesma dignidade e merecem todos o mesmo respeito.




