Terça-feira, 15 de Junho de 2021
Luís Pereira
Historiador e Arqueólogo. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A Cultura da Obra

Portugal detém de forte identidade cultural e é rico em vestígios arqueológicos e monumentos que no seu conjunto constituem a nossa herança cultural e que é nosso dever valorizar e zelar para as gerações futuras.

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É precisamente para esse futuro que se vê que presentemente a cultura é valorizada somente através da obra contemporânea. Ao analisar o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) que o Governo apresentou à União Europeia (UE) fica-se com a impressão que, no que toca à Cultura (que foi incorporada a custo neste PRR) apenas se anunciam obras e a vontade de fazer obra, intitulando como investimento cultural. Até pode ser entendido como investimento, mas o objetivo principal é a promoção das empresas de construção civil e não a área cultural em si que foi afetada pela pandemia do Covid-19. Apresentam um rol de monumentos e museus que vão ser alvo de “valorização” através de obras quando o que se esperava seria ajudar os teatros, os museus, as entidades e pessoas que trabalham na cultura em Portugal a superar esta crise, ficando mesmo com a impressão que estes ficam de fora. Sim, vão dotar de novos meios informáticos e modernização dos espaços museológicos mas esquecem-se principalmente das pessoas que trabalham diretamente nesses espaços. Esta crise económica ajudou o Governo a ter noção dos vários problemas que existem dentro dos museus que estão na alçada do Ministério da Cultura mas em nada ajudou em querer resolver ou melhorar a situação existente. Há falta de profissionais quer nas Direções Regionais de Cultura quer nos Museus, e por cada trabalhador que se aposenta não há substituição, perdendo assim conservadores, desenhadores, investigadores, conhecimento, etc. pondo em risco a continuidade da investigação e preservação dos bens culturais do nosso país. Descobriram que existem vários profissionais da área cultural a recibos verdes e a resposta foi reconhecer estas pessoas através da criação do Estatuto do Profissional da Cultura, não para combater os falsos recibos verdes mas sim para obter mais rendimentos para a Segurança Social, mantendo da mesma forma a precariedade laboral e a falta de meios humanos. Os museus, segundo o ICOMOS Portugal, são instituições sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, abertos ao público, que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade com fins de educação, estudo e deleite, e que laboram com pouco investimento humano e financeiro para fazer investigação, conservação, estudo e divulgação. Ficam, no entanto, com obras de fachada de uma cultura de obra, uma vez que o Governo foi impedido pela UE de fazer pontes, autoestradas, barragens e afins, e para dizer que se preocupam com a cultura surgem estas “obras culturais” nos museus e monumentos mais visitados e economicamente rentáveis, e que estão na sua maioria circunscritos na capital, ficando o resto do território pobre e de fora do PRR, este que vem ajudar a fincar ainda mais a assimetria económica e social do País.

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