Quinta-feira, 21 de Outubro de 2021
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A DEMOLIÇÃO DO EDIFÍCIO DA PANREAL

A recente demolição do edificio da panificadora Panreal provocou acaloradas discussões, situação a que não podia ficar indiferente, por razões afetivas, pelo que aqui expresso o meu ponto de vista. 

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Projetado pelo arquiteto e artista plástico flaviense Nadir Afonso foi considerado, justamente, à época, em 1965, um exemplar da arqutetura moderna. Não sabemos se, durante o desenvolvimento projetual, o autor adotou o famoso mote a forma segue a função, formulação que continua envolta em polémica desde que o arquiteto Louis Sullivan perfilhou este conceito. Mas, o resultado alcançado não deixa dúvidas quanto à importância do seu valor arquitetónico.

Assisti de perto à sua construção, na medida em que ela coincidiu com a minha passagem pelo Colégio da Boavista, localizado nas proximidades, nesse já longínquo ano de 1965. O seu proprietário era familiar do senhor Alírio, pai do Zé Vilela, nosso colega da Escola Industrial e Comercial. O progenitor, deste nosso companheiro e amigo, era muito conhecido e estimado no seio da sociedade vila-realense, por ser dono de uma mercearia e casa de petiscos, junto à passagem de nível, muito frequentada pelas populações da “Bila” e das aldeias circundantes.

A sua não classificação como imóvel de interesse público, que naturalmente se lamenta, foi alvo de acesa discussão, no entanto, abordando esta temática sobre uma outra perspetiva, verificamos que nada foi referido sobre a importância que tal empreendimento teve na indústria de panificação local, daquela época, quase toda virada, essencialmente, para a fabricação e distribuição do pão.

A entrada em funcionamento da Panreal veio, pois, revolucionar o mercado do setor, ao introduzir um novo conceito de negócio, na indústria da panificação, confecionando e comercializando para além do pão, como elemento principal, produtos de pastelaria e afins, obrigando, assim, a concorrência a modernizar-se para não perder o comboio de um negócio fluorescente que, inteligentemente, o empresário da Panreal soube aproveitar como ninguém, oferecendo ao consumidor uma diversidade de produtos alimentícios que incentivava a sua apetência e muito contribuiu para o sucesso da sua aposta empresarial.

Desconheço as razões que estiveram na origem da sua posterior decadência. Talvez o aparecimento das grandes superfícies comerciais, cuja ação canibalesca, exercida sobre o pequeno comércio, é inegável, tenha contribuido para a sua inatividade e consequente desaparecimento.

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