Apesar de ser ridícula a forma como a humanidade consegue reciclar os mesmos vícios e vendê-los como novos, a verdade é que funciona sempre. Os romanos enchiam anfiteatros para ver sangue e espetáculo e dois mil anos depois, nós enchemos estádios para ver vinte e dois milionários tatuados a correr atrás de uma bola. Mudaram os atores, mas o guião continua intacto, quanto mais circo houver, menos perguntas se fazem sobre o pão. Dá muito menos trabalho discutir um fora de jogo do que perceber porque é que a vida está cada vez mais cara.
Começa mais uma época e com ela renascem as esperanças. Novos treinadores, novos jogadores, novas camisolas, novos slogans e a eterna promessa de que este ano é que vai ser. O campeonato anterior já foi arquivado, o Mundial já pertence às memórias e os heróis de ontem voltaram todos à estaca zero. A memória do adepto dura exatamente o tempo necessário para comprar a camisola seguinte. O futebol percebeu antes de todos que a esperança é o produto mais lucrativo que existe.
Ultimamente tenho observado tudo isto com algum divertimento e perplexidade. Pessoas incapazes de discutir um orçamento de Estado defendem um sistema tático durante horas como se a estabilidade do país dependesse de um médio defensivo. Amizades estremecem, famílias dividem-se e a inteligência tira folga ao fim de semana para dar lugar ao fanatismo. Os argumentos são sempre os mesmos, os insultos também. Apenas mudam os protagonistas, porque a peça é rigorosamente igual há décadas.
Há uma capacidade extraordinária de transformar o futebol numa questão de identidade pessoal. Já não se diz que o clube perdeu, diz-se “perdemos”, como se tivé ssemos estado noventa minutos a correr no relvado. Quando ganha, somos todos campeões. Quando perde, a culpa é do árbitro, da federação, do treinador, do relvado, do calendário, do vizinho ou de qualquer conspiração internacional que evite a hipótese mais dolorosa: os outros jogaram melhor.
Hoje, já nem é preciso passarmos horas enlatados no meio do público nem levar com o pó da arena. O coliseu mudou-se para a sala de estar. Há Sport TV, cerveja fresca no frigorífico e um sofá confortável para nos instalarmos e insultarmos os árbitros sem risco de resposta.
O futebol é apenas um jogo, mas a facilidade com que aceitamos trocar pensamento por entretenimento é algo espetacular. Eu também gosto de ver um bom jogo. O problema começa quando o resultado de noventa minutos pesa mais do que tudo o resto que acontece à nossa volta. Nessa altura percebo que o velho ditado nunca perdeu atualidade. Apenas mudou de cenário. O coliseu deu lugar ao estádio. Os gladiadores vestiram chuteiras. E nós continuamos nas bancadas, convencidos de que somos espectadores, quando afinal sempre fizemos parte do espetáculo.


