Quarta-feira, 1 de Abril de 2026
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Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A história das cidades é a histórias das suas ruas

Há mais ou menos um mês, fui ao Centro histórico de Vila Real. Era uma tarde de fim de semana.

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Fui a uma livraria porque sabia que poderia encontrar lá um título cuja atenção me perseguia há uns tempos. Foi então que o vi.

Ele olhava para as colunas de blocos de pedras que ladeavam portas na Rua Direita. Tirava notas num bloco. Tirava fotos com um telemóvel. Olhava longamente pormenores. E, ainda mais bizarro, tocava as pedras como se os dedos dele fossem um estetoscópio.

Isto passou-se em Vila Real, há coisa de mais ou menos um mês. Para mim, a Rua Direita, assim como boa parte daquele meio quilómetro quadrado a que chamamos “o Centro”, é um álbum. Ou um desfile de fotografias naquelas estantes que, por vezes, olhamos, seja para limpar o pó, seja para sorrir para o sorriso feliz de quem tanto nos dizia e que ficou na moldura. Como a maioria dos vila-realenses, somos capazes de contar meia dúzia de boas histórias em cada meia dúzia de metros por lá. Por isso, quando alguém tem o exotismo que aquele viajante exibia, ficamos algo perplexos, assim como quando alguém estranho exclama diante de uma foto desse espólio familiar.

“As pedras falam consigo?”, perguntei-lhe, com a minha habitual intrepidez.

Ele respondeu-me. Era um investigador geólogo aposentado. Daí, a vocação para a pedra. Sobretudo, para perceber que cada calhau não é apenas um conglomerado de matéria.

Mostrou-me ao longo da Rua Direita cianitas de Monchique, serpentinites de Donai, mármores de Estremoz, gabros, granitos de (pasme-se) Vila Real, outros de uma e duas micas, e até granitos porfiroides. Tudo ali, onde eu passara e onde passo milhares de vezes, sem aquela sensibilidade nem aquele valor percebido.

O meu lado economista continuou: “Porque acha que existia esta diversidade?”

E ele, continuando a rabiscar, a tocar e a ouvir as pedras, respondeu. Que mostrava que quem vivia por ali (e por ali tinha investido) tinha brio, gosto estético e arquitetónico e recursos para trazer pedras de tão longe. Sobretudo, tinha certeza ou esperança de que, mesmo com tanto futuro incerto, inclusive com abandono latente ou presente, as rochas perdurariam. Com ou sem valor. Como as ruas, tantas vezes só admiradas por estranhos. O que me recordou então Jorge Luís Borges: a história das cidades mais não é do que a histórias das suas ruas.

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