Quarta-feira, 24 de Junho de 2026
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Eu, confrade, me confesso

Quando os primeiros confrades do Covilhete começaram a sair à rua há 10 anos, trajados, devo confessar que eu, como muitos vila-realenses em meu redor, olharam com surpresa para o fenómeno.

Ninguém se espanta por andar numa rua na Cidade da Praia, como também me aconteceu, e ver cidadãos (desconheço a nacionalidade dos mesmos) com camisolas de clubes como o Benfica (muitas), o Porto (também algumas), o Sporting (algumas) ou o Barcelona (uma ou outra). Ou numa outra cidade qualquer, inclusive nas nossas terras, onde cidadãos já começaram a sair com as jerseys do Fluminense, do Flamengo ou do Corinthians. Para não falar das camisolas do Bila ou do Abambres (ou das monopolísticas do Vitória em Guimarães). Já impacto maior temos quando um grupo de pessoas se cruza connosco trajando todas de igual. Ou porque são escuteiros, ou porque vêm apoiar uma equipa de infantis ou de juvenis, ou porque vão para a Primeira Comunhão ou para a Bênção das Pastas.

No entanto, desde 1990, o país começou a despertar para a realidade das confrarias gastronómicas. Um pouco por todo o lado, grupos de cidadãos adotaram o nome das ancestrais religiosas e o repasto laico das festividades anuais das mesmas. Mas sobretudo as confrarias gastronómicas ficaram focadas nos pratos típicos de cada região. Fossem pratos de carne, de peixe, de doçaria, de frutas ou produtos vínicos, as confrarias gastronómicas tornaram-se agentes simultaneamente de desenvolvimento turístico, cultural e de animação local.

Incentivado pela minha entrada na Confraria do Covilhete em 2024, mobilizei vários grupos de estudantes para analisarem o fenómeno em Portugal. Os resultados dessa investigação serão publicados em breve, mas mostram desde já evidências significativas.

Em primeiro lugar, as confrarias gastronómicas, mais concentradas no Norte e no Centro, não são propriamente dependentes da densidade humana ou de recursos da área envolvente da sede. Portanto, estando espalhadas pelo país (em média existem uma a duas confrarias ativas por cada três concelhos de Portugal, sendo o valor médio dos membros em redor de 30 por confraria), elas reagem mais à motivação dos membros do que à abundância de recursos.

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Em segundo lugar, injetam no território nacional, quer na despesa associada a rubricas como os capítulos quer na paramentação e nas quotizações, no mínimo, três a quatro milhões de euros anuais. Assim, numa média simplificada, colocam em cada concelho algo entre 10 mil a 20 mil euros anuais, aproveitados sobretudo pela restauração local e pelo turismo.

Finalmente, a longevidade das mesmas merece uma nota de reflexão. O boom a nível nacional deu-se entre 2000 e 2010. A criação de confrarias mantém-se com uma média aproximada de seis novas entidades a cada cinco anos. Esse padrão sugere que, embora as confrarias possam ser consideradas um fenómeno recente, a sua expansão parece ter atingido um ponto de estabilização, sem novas ondas de crescimento.

Ainda assim, mais importante do que o impacto visível é o exemplo de associativismo, de preservação de patrimónios materiais e imateriais em risco, assim como de momentos de convívio são e memorável que deixam e com os quais contagiam o resto das comunidades.

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