Sábado, 4 de Dezembro de 2021
António Martinho
VISTO DO MARÃO Ex-Governador Civil, Ex-Deputado, Presidente da Assembleia da Freguesia de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

“As pessoas com poder têm de dar ouvidos aos cientistas”

O óbvio, dirão alguns dos leitores. O simples e direto, tão-somente. Afinal, sempre foi assim. Até quando Galileu foi condenado. Se tivessem ouvido os cientistas…

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Escolhi esta frase de Greta Thunberg para título deste meu Visto do Marão porque me parece dizer tudo. E os que não lhe querem dar ouvidos, ou lhe atiram os piores vitupérios, têm disso consciência. A começar pelos que a mandam para casa para ir à escola e fazer os “deveres”. São os defensores da escola em que se ensina muito e se aprende, por vezes, muito pouco. Esta jovem mostra a todos que a escola pode ser/é um local de aprendizagem, um espaço em que o que se aprende, se estrutura, se organiza, se interioriza para que tudo isso possa passar a constituir parte das competências de cada um. Ou os que rotulam a sua vinda a Lisboa como um “triste espetáculo”. Ora, esta adolescente, tímida, que, ao sair do barco que a trouxera Atlântico fora – de onde recebemos, cada vez mais, tufões e tempestades – encarava as pessoas e as câmaras com alguma dificuldade, não deu espetáculo nenhum. Os que assim a viram, políticos de um certo espaço ideológico-partidário, provavelmente, porque sentem que lhe foge por entre as mãos o poder que já tiveram e que usaram precisamente contra muito do que os cientistas dizem, esses são, claramente, destinatários das suas palavras. Ou porque receiam a mudança que estes jovens estudantes exigem. Mas atenção: diga-se o que se disser, eles demonstram uma forte consciência cívica e um empenho bem consciente de participação na resolução de problemas da cidade que, hoje, é o mundo global, bem sujeito a desastres que alguns persistem em não querer ver. Greta Thunberg merece ser ouvida. Merece, no mínimo, ser respeitada. Sem a endeusar, mas também sem a diabolizar.

É neste quadro de aguda consciência cívica e cidadã que eu vejo os jovens que se mobilizaram para as “greves pelo clima”, por ocasião da COP25 e já há uns tempos – fiz disso eco em março passado. As suas palavras de ordem mantêm atualidade (“Reciclar não chega”, “Paremos de Perseguir o Mundo”, “A Terra a Morrer, Políticos Só a Ver”) e não é preciso fazer perguntas tentando mostrar como são inúteis estes protestos. Os adolescentes e jovens que se mobilizam, na simplicidade do seu discurso, ou no grito estridente das reivindicações que muitos consideram estultícia, estão a mostrar o seu desencanto, o seu receio por um amanhã de incertezas. Só pedem “passos claros” no sentido de soluções. Não lhes compete a eles defini-las. Oiçam os cientistas, dizem-nos. Não vale a pena tentar correntes intimidatórias nas redes sociais. Se uns se mostram empedernidos aos apelos ao bom senso, outros já se escudaram para os ataques subtis, ou a afronta desabrida dos “negacionistas”. Cartas com apelo ao “bom comportamento”, ou com ameaças a férias em estâncias de ski, ou em destinos tropicais exóticos soam a falso. Afinal, quem tem acesso a esses luxos?

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