António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

“As pessoas com poder têm de dar ouvidos aos cientistas”

O óbvio, dirão alguns dos leitores. O simples e direto, tão-somente. Afinal, sempre foi assim. Até quando Galileu foi condenado. Se tivessem ouvido os cientistas…

Escolhi esta frase de Greta Thunberg para título deste meu Visto do Marão porque me parece dizer tudo. E os que não lhe querem dar ouvidos, ou lhe atiram os piores vitupérios, têm disso consciência. A começar pelos que a mandam para casa para ir à escola e fazer os “deveres”. São os defensores da escola em que se ensina muito e se aprende, por vezes, muito pouco. Esta jovem mostra a todos que a escola pode ser/é um local de aprendizagem, um espaço em que o que se aprende, se estrutura, se organiza, se interioriza para que tudo isso possa passar a constituir parte das competências de cada um. Ou os que rotulam a sua vinda a Lisboa como um “triste espetáculo”. Ora, esta adolescente, tímida, que, ao sair do barco que a trouxera Atlântico fora – de onde recebemos, cada vez mais, tufões e tempestades – encarava as pessoas e as câmaras com alguma dificuldade, não deu espetáculo nenhum. Os que assim a viram, políticos de um certo espaço ideológico-partidário, provavelmente, porque sentem que lhe foge por entre as mãos o poder que já tiveram e que usaram precisamente contra muito do que os cientistas dizem, esses são, claramente, destinatários das suas palavras. Ou porque receiam a mudança que estes jovens estudantes exigem. Mas atenção: diga-se o que se disser, eles demonstram uma forte consciência cívica e um empenho bem consciente de participação na resolução de problemas da cidade que, hoje, é o mundo global, bem sujeito a desastres que alguns persistem em não querer ver. Greta Thunberg merece ser ouvida. Merece, no mínimo, ser respeitada. Sem a endeusar, mas também sem a diabolizar.

É neste quadro de aguda consciência cívica e cidadã que eu vejo os jovens que se mobilizaram para as “greves pelo clima”, por ocasião da COP25 e já há uns tempos – fiz disso eco em março passado. As suas palavras de ordem mantêm atualidade (“Reciclar não chega”, “Paremos de Perseguir o Mundo”, “A Terra a Morrer, Políticos Só a Ver”) e não é preciso fazer perguntas tentando mostrar como são inúteis estes protestos. Os adolescentes e jovens que se mobilizam, na simplicidade do seu discurso, ou no grito estridente das reivindicações que muitos consideram estultícia, estão a mostrar o seu desencanto, o seu receio por um amanhã de incertezas. Só pedem “passos claros” no sentido de soluções. Não lhes compete a eles defini-las. Oiçam os cientistas, dizem-nos. Não vale a pena tentar correntes intimidatórias nas redes sociais. Se uns se mostram empedernidos aos apelos ao bom senso, outros já se escudaram para os ataques subtis, ou a afronta desabrida dos “negacionistas”. Cartas com apelo ao “bom comportamento”, ou com ameaças a férias em estâncias de ski, ou em destinos tropicais exóticos soam a falso. Afinal, quem tem acesso a esses luxos?

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