Na Bíblia, encontramos a referência à túnica que Jacob ofereceu ao seu filho José, como símbolo e manifestação pública do seu amor. “Israel amava mais José do que a todos os seus outros filhos, porque ele era o filho de sua velhice, e mandou fazer-lhe uma túnica adornada. Seus irmãos viram que seu pai o amava mais do que a todos os seus outros filhos e odiaram-no…” (Gn 37,3-4). E, mais à frente, quando os irmãos de José, depois de o terem espancado, atirado a um poço seco e de o terem vendido como escravo, apresentaram a sua túnica ensanguentada ao pai, este acreditou que o seu amado filho tinha morrido. Para Jacob, se a túnica estava ali, ensanguentada e sem José, é porque ele estava morto.
Mas Deus tinha outros planos! Nunca deixando de proteger José, fez com que o dom que lhe tinha dado (interpretação dos sonhos), lhe permitisse deixar de ser escravo, e passasse a ter um cargo de extrema importância no Egipto.
Também após a crucifixão de Jesus, os soldados sortearam a Sua túnica, feita de um só fio, “sem costura, tecida numa única peça, de alto a baixo” (Jo 19,23).
Todos os que acompanharam Jesus (de longe ou perto) – desde a prisão, no Jardim das Oliveiras, até ao Calvário -, e presenciaram a Sua crucificação, começaram por aceitar que, com a Sua Morte, tudo tinha acabado. Mas Deus tinha outros planos! Contrariando tudo e todos, “Deus ressuscitou-O, libertando-O dos grilhões da morte” (Act. 2, 24).
Também a todos nós, no momento do nosso batismo, é dada uma “túnica”, de uma só peça mas com duas faces, quase indistintas, e que se completam ou complementam, e que apenas a nós serve, “fica bem”. É o plano de Deus para cada um de nós. E as duas faces desta nossa túnica são: o chamamento – a vocação, e o envio – missão!
Vocação é um termo com origem no Latim “vocare”, que significa “chamar”. E todos nós, os que fomos batizados em “nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt.28, 19), temos vocação para a santidade, isto é, somos chamados por Deus à santidade, através da nossa doação e entrega ao Seu serviço, ao serviço da Igreja e ao serviço dos outros. E para podermos assumir e concretizar essa vocação em toda a sua plenitude, Deus dá-nos as necessárias qualidades ou carismas (do grego, que significa “dom gratuito”).
Também a palavra missão tem origem no Latim, e significa “enviar” (“missio”). Jesus envia-nos a ser anunciadores e testemunhas da Sua Boa Nova, tal como enviou os Apóstolos: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. (…) E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram.” (Mc. 16, 15,20)
Não existe, pois, chamamento – vocação, sem envio – missão! E não existe missão se não houver quem a possa realizar. Vocação e missão não são a mesma coisa, mas elas estão muito ligadas, sendo consequência uma da outra.
Deus chama-nos para nos enviar. Cabe-nos a nós estar atentos ao chamamento, responder Sim, e, assim, manter vestida a túnica que Deus nos ofereceu; na certeza de que ninguém no-la pode tirar, e só cada um de nós a pode despir, numa atitude de rejeição da vontade de Deus.




