Quarta-feira, 4 de Agosto de 2021
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Com todo o respeito, sou contra as touradas

Pelos vistos, querem proibir a transmissão de touradas no canal público.

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Os grandes promotores e aficionados desta grande tradição social e cultural levantaram-se em coro contra este anúncio do Senhor Secretário de Estado, acusando-o de censura e de clara restrição de liberdade de programação do canal público, publicando cartas abertas, com o apoio de distintas personalidades do país e autarcas, e ativando abaixo-assinados para reverter a intenção do governo.

Por mais argumentos que os seus defensores me apresentem, não consigo deixar de ver a tourada como a tortura bárbara de um animal. E não sinto qualquer gozo ou volúpia em ver um espetáculo em que humanos se divertem à custa do sofrimento cruel de um animal. Por mais que me digam que há ali arte, é uma arte que troça e mata um animal, logo é uma arte menor e sem graça. E nem falo dos horrores que acontecem, por exemplo, em algumas praças de Espanha. Se as touradas se limitassem aos toureiros e forcados, sem ofensa ao animal, ainda seria sensível à sua continuidade, mas, diante do atual formato, sou contra a sua realização. E mesmo só com toureiros e forcados é discutível se valeria a pena sujeitar a vida humana aos riscos de enfrentar um touro, com os fins trágicos a que já assistimos.

Não se pode aceitar o argumento de que é uma tradição e que fazem parte do património social e cultural de Portugal. As tradições não são sagradas, estão sempre sujeitas à transformação e ao julgamento da sociedade e dos tempos. É uma tradição, mas é uma má tradição, cabendo-nos, segundos os padrões éticos e humanos que hoje consideramos aceitáveis e os mais corretos, suprimi-la ou reformulá-la. A escravatura humana também foi uma tradição durante séculos, até ao dia em que foi considerada inaceitável e se promoveu a sua extinção. O que importa é o que está bem e o que está mal e não aquilo que é tradição. Se está mal, tem de se mudar. A moral e a ética é que regem a vida e não a tradição.

Também não aceito o argumento de que só vê quem quer. Com este tipo de argumentação tudo é possível na vida. É uma argumentação inaceitável. Uma sociedade tem de se construir e reger por aquilo que é correto que se faça, e não pelos gostos de fações ou de grupos. Estaríamos a dividir a sociedade e dar a uma parte o poder de fazer o mal. O sofrimento da tourada não tem qualquer justificação, é gratuito e completamente desnecessário. Não temos o direito de abusar assim barbaramente de um animal.

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