Terça-feira, 13 de Abril de 2021
Luís Pereira
Historiador e Arqueólogo. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Cuidado onde pisam

Para não pisarem património foi preferível arrancar tudo do que valorizar, pois sabemos muito bem como se trata o património cultural em Vila Real

Não é surpresa a candidatura da Calçada Portuguesa a Património Cultural Imaterial Nacional à UNESCO que foi apresentada pela Câmara Municipal de Lisboa, uma vez que é de conhecimento público a publicação da Resolução da Assembleia da República n.º 54/2018 no Diário da República, 1ª série, n.º 41 de 27 de Fevereiro de 2018. Não se trata apenas de um património lisboeta mas sim Nacional e que está presente em todo o país e nos países que no passado pertenceram ao Império Português, não sendo porém algo negativo e que possa ser associado ao colonialismo lusitano, por mais que atualmente tentem abafar essa parte da nossa história. Sabendo isto, não se compreende como se optou por destruir a Calçada Portuguesa na Avenida Carvalho Araújo para dar um ar renovado ao centro histórico, sendo impossível (na visão do arquiteto e na exigência da autarquia) a preservação deste património ao ponto de ridicularizar a calçada. Para não pisarem património foi preferível arrancar tudo (com paradeiro incerto da calçada) do que valorizar, pois sabemos muito bem como se trata o património cultural em Vila Real. No fundo não quiseram assumir a responsabilidade de cuidar de mais um património local e nacional que pisávamos diariamente!

Ao falar de calçada também se deve dar uma achega aos caminhos de peregrinação a Santiago – o Caminho Português Interior, pois decorrem trabalhos de “valorização” deste caminho romano-medieval. Não deixa de ser caricato ver máquinas giratórias a “valorizar” estes caminhos antigos, ficando a dúvida se vão preservar os vestígios dos troços lajeados que caracterizam estes caminhos ou se o pavimento que pretendem valorizar implica a remoção/destruição deste património que consta na Base de Dados do Património Cultural Nacional. Haverá exigência local e da tutela do património em acompanhar arqueologicamente estes trabalhos? Desconhecemos se está previsto qualquer ação preventiva de salvaguarda dos vestígios de interesse arqueológico que podem surgir ao longo dos 205 km de extensão deste caminho. No verão passado ridicularizaram a Calçada Romano-Medieval da Campeã, também esta de peregrinação medieval, ao ponto de duvidarem publicamente sobre a existência desse caminho e assim permitirem a destruição parcial deste troço para as obras de saneamento, não havendo qualquer esforço para a preservação integral desse troço que tinha sido apresentado um Pedido de Classificação Patrimonial. Demonstra-se assim o vazio enorme sobre o conhecimento da história local e dos sítios de interesse patrimonial local, havendo moral apenas para valorizar onde querem esbanjar dinheiro comunitário.

E como quem pisa o chão que não valoriza também pisa os habitantes através da opressão e da pressão sobre tudo aquilo que têm interesse em manipular, seja um clube de futebol ou umas eleições para a Reitoria da UTAD. Nesta falsa democracia cujos valores morais são postos de lado, a vontade em manipular todos os setores (justiça, saúde, cultura e educação) transmite uma visão deturpada sobre a Liberdade em que supostamente vivemos, pois, a população ainda têm medo de dar opinião pública e os que dão sentem a opressão diretamente na pele, o que leva a dizer: cuidado onde pisam.

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