Nunca tinham ouvido falar de Trás-os-Montes, nem de Boticas. Sabiam que Portugal era um país irmão, mas a ideia de viajarem para o outro lado do mundo em busca de melhorar as condições de vida, fazer mais de 14 mil quilómetros, não lhes passava pela cabeça, devido aos parcos recursos.
Contudo, alguns timorenses começaram a considerar a hipótese, quando, em maio de 2022, numa visita de Estado a Timor Leste, do Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa disse que em Portugal havia oportunidades de trabalho, por haver falta de mão de obra, e que seriam bem-vindos.
O salário mínimo em Timor é de 107 euros, e o vencimento médio ronda os 160. Além de ganharem pouco, para muitos é difícil conseguir trabalho fixo. Por isso, ao ouvirem o discurso de Marcelo decidiram arriscar, no que lhes parecia ser uma terra de oportunidades.
No entanto, quando aterraram na capital portuguesa não encontraram apoio. Muitos foram enganados por supostas agências de emigração, que os abandonaram depois da partida de Dili, sem trabalho, documentos, teto, alimentação ou roupa. Por falarem mal português ou não falarem de todo, conseguir resolver os problemas não foi fácil. As circunstâncias fizeram com que tivessem mesmo de dormir na rua, em estações de metro, no Terreiro do Paço ou Cais do Sodré durante algum tempo, ao relento ou em tendas, em pleno inverno e durante inundações em Lisboa.

Da capital até Boticas o caminho não foi direto, mas foi no concelho transmontano que alguns acabaram por encontrar o prometido emprego e melhores condições. Ernesto Martins foi um deles. “Vim para procurar trabalho”, e tentar uma vida melhor, diz-nos.
Lembra-se de ouvir o presidente português dizer que “quem quisesse trabalhar podia ir para Portugal” e também não esquece os tempos difíceis à chegada. “Não tinha trabalho, só andava na rua”, recorda. Nos primeiros tempos foi onde dormiu, e a cara fica mais fechada ao recordar esses dias. Quando chegou de Timor Leste “foi difícil”, mas depois de ter conseguido o visto a vida ficou mais simplificada, e encontrou trabalho fixo em Boticas, onde está há quase 2 anos.
Boticas
Em 2022, durante quatro ou cinco meses, centenas de timorenses chegaram a Lisboa. E só quando o caso se tornou conhecido, depois de apelos de várias associações e através da comunicação social, a proteção civil interveio, alojando, provisoriamente, num centro de acolhimento de emergência, cerca de 40 timorenses que não tinham conseguido encontrar teto.
Na procura de empresas que precisassem de mão de obra, o contacto chegou à Construções 13 de Agosto, na Carreira da Lebre, que foi uma das que aceitou dar-lhes emprego. Além de construção civil, a empresa familiar também se dedica à área florestal, e a falta de pessoal era uma constante.
Do grupo, Alberto Amaral é o que ali trabalha há mais tempo. Em 2022, foi do abrigo em Lisboa, onde esteve alguns meses, para a empresa. “Vim procurar trabalho, em Timor temos pouco dinheiro”, diz.
Inicialmente, eram quatro, mas “quando o patrão precisa de mais pessoas”, eles ligam a colegas, e agora são sete a trabalhar.
Recentemente, Alberto conseguiu ir a Timor de visita, pela primeira vez. “Falei com o patrão para ir visitar a família”, e tirou um período mais alargado de férias para matar saudades. Quando foi embora “ele disse que podia voltar para continuar a trabalhar e eu voltei”. Em Timor, diz, continua a não haver muito trabalho e acredita que é melhor manter-se em Portugal mais uns tempos, para juntar dinheiro para construir uma casa para viver com a mulher e os dois filhos.
Um dos que também chegou nessa vaga, foi Agapito Teimali. Esteve em Portel, no Alentejo, onde era operador de máquinas na apanha da amêndoa e azeitona. “Estive lá seis meses e acabou o contrato, depois fui trabalhar noutra oficina de soldadura e pintura, mas depois o contrato também acabou e trabalhei nas obras, em Vila Real de Santo António”, conta o timorense, de 43 anos. Fala melhor português do que os companheiros, mas isso não lhe deu mais vantagens. “Foi difícil, quando vim fui aprendendo português, pouco a pouco”.
Há cerca de 9 meses chegou a Trás-os-Montes e passou a ter um contrato de mais tempo, com mais segurança. No entanto, depois de várias experiências de instabilidade mostra-se desconfiado. Não conhecem os direitos que têm e acabam, muitas vezes, explorados ou mal pagos. Agora custa-lhe acreditar que a empresa não o vai mandar embora, mais dia menos dia. Por isso, diz que não sabe se vai ficar muito tempo por cá. “Depende do contrato, se acabar tenho de ir para o meu país, se tiver trabalho fico”, afirma, já que manda todos os meses dinheiro para Timor. Para já faz planos de visitar a família e depois “vir outra vez”.
Mas, Sandrina Gonçalves, da Construções 13 de Agosto, explica que como precisam de trabalhadores o objetivo é mantê-los na empresa, e diz mesmo que nunca despediram nenhum dos timorenses que ali chegaram, salientando que são “cumpridores, humildes e sempre muito educados”.

Para Agapito, “ser emigrante é sempre difícil, o país é muito longe de casa”, e a adaptação ao clima também não foi fácil. “Faz muito frio e depois, muito calor”, confessa, coisa a que não estavam habituados, mas também tiveram experiências novas como ver a neve.
Moram todos juntos e a principal meta é enviar dinheiro para a família, para o seu sustento, para pagar dívidas, como a viagem para Portugal, e para construírem casas. O dono da empresa conta que no início mandavam o dinheiro quase todo e preferiam passar algumas dificuldades. “Agora, já se adaptaram melhor, mas no início só comiam mesmo arroz, para poupar”, recorda.
Antes de Ernesto ir para Boticas, passou uma temporada na Lourinhã. “Trabalhava uma semana, ou só quando o patrão precisava”. Como o trabalho não era fixo, o rendimento também era incerto. “Gosto mais de estar aqui do que na Lourinhã”. O trabalho, na limpeza da floresta, exige muito esforço físico, e, a princípio, era complicado, “mas fica mais fácil” com o tempo. Diz que vai “continuar a trabalhar para ganhar dinheiro”, ainda durante algum tempo, mas o objetivo é, mais tarde, regressar ao seu país.
As saudades da família apertam, e há cerca de três anos em Portugal, ainda não voltou à terra natal. “Falo com eles pelo telemóvel, todos os dias”, diz.
Da convivência com eles, Sandrina já percebeu que “são muito ligados à família, sentem muito a sua falta e a maior parte deles tem filhos”. E apesar de estarem sempre em contacto, “é claro que é diferente, é muito difícil estar aqui há três anos e não ir lá”.
Também Mamerto Boavida “gostava muito de ir a Timor, mas o bilhete é muito caro”. Custa acima de mil euros e muitas vezes 2 mil. O percurso foi semelhante ao de outros conterrâneos. Há três anos chegou a Portugal, e trabalha em Boticas há quase dois anos.
“Vim procurar trabalho, porque em Timor não havia, trabalhava na construção, mas era pouco o trabalho”, conta. A língua, que fala com dificuldade, foi um entrave para conseguir tratar dos papéis e arranjar emprego. “Falo português, pouco”. Foi inicialmente para Évora, apanhar azeitona e amêndoa, em trabalhos sazonais. O “dinheiro era pouco”, diz. Depois “o irmão Zé Carlos” que já estava em Boticas “falou com o patrão, para eu vir para aqui”. Irmão é uma designação com que se tratam uns aos outros, mesmo não sendo da mesma família. Vão mantendo o contacto e tentando ajudar, para que não voltem a passar por dificuldades.
Feliciano, outro dos colegas, foi dos últimos a vir para Portugal. Esteve de início na zona de Lamego, a “trabalhar na maçã”, mas apenas por “duas semanas”, vivendo com muita instabilidade. Um dos amigos que estava em Boticas levou-o para lá, tendo chegado há cerca de 6 meses e ainda não foi tempo suficiente para aprender português.
Falta de mão de obra
Apesar de ser a língua oficial de Timor Leste, a par do tétum, a verdade é que o português é um idioma estranho para estes homens que cresceram durante a ocupação indonésia ou nos primeiros tempos da independência, e, ao contrário dos filhos que aprendem a língua de Camões na escola, o contacto com a nossa língua foi escasso.
A comunicação entre os responsáveis da empresa e os empregados é difícil, e a tecnologia dá uma ajuda. Usando um tradutor para indonésio, conseguem dar indicações e informações. “Eles dizem sempre que sim, mas às vezes não nos estão a perceber”, conta Adriano Valdemar Gonçalves, proprietário da empresa.

Segundo o empresário, “há muita dificuldade em arranjar pessoal, em todas as áreas, não é só nesta”. “É o que mais nos preocupa, nesta altura”, diz mesmo. “Precisávamos de mais funcionários, aqui não temos gente, só contratando imigrantes”, refere. Mas, em muitos casos, estes ficam poucos meses, porque “isto é uma porta de entrada para a Europa e vão embora”, afirma.
Podendo contar com uma permanência mais prolongada, valoriza o trabalho deste grupo de timorenses, além de a questão humanitária também ter pesado na decisão. “Eles vieram de Lisboa, daquele “armazém” que estava cheio, uns já tinham andado na vindima, apanha do morango ou da azeitona, mas era só aquele tempo e depois iam para a rua. Nós já temos alguns há perto de três anos” e têm trabalho o ano inteiro. Nos primeiros tempos “desconfiavam de tudo e de todos”, devido ao que tinham passado.
“Estamos satisfeitos com a decisão que tomámos em contratá-los. Se não fossem eles, não tínhamos conseguido realizar alguns trabalhos na floresta”, refere Sandrina. “Trabalhadores para as máquinas vamos tendo, mas há muitos trabalhos que têm de ser feitos manualmente”, com recurso a equipamentos como motorroçadoras, e “não há portugueses que queiram fazer este trabalho, pelo menos todo o ano”.
Alguns timorenses passaram pela empresa e foram embora, nomeadamente de volta para Timor, mas “não é complicado” conseguir quem os substitua. “Isso é rápido, às vezes digo que preciso de um e eles falam-me logo de dois” conterrâneos disponíveis para trabalhar.[/block]






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