Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2026
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Luís Pereira
Luís Pereira
Historiador e Arqueólogo. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Lusco-fusco

Um projeto de recuperação patrimonial é sempre algo arriscado, pois arrisca-se na maior parte das vezes em dar ênfase ou importância ao que não importa, perdendo o objeto de intervenção o seu valor e reconhecimento.

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Ainda bem que a musealização da Central do Biel foi bem conseguida, um exemplo de rara frequência nos nossos lados e cabe ao cidadão dar os parabéns e visitar algo que enriquece o nosso território.

O património industrial é também um bem que merece destaque e valorização na nossa sociedade, pois no seu tempo áureo trouxeram inovações tecnológicas, modernizaram o país e contribuíram para a entrada, apesar do gigante atraso temporal em comparação com outros países, na era industrial europeia. Obviamente quando um município pretende valorizar uma ruína e transformar em centro didático e museológico assume, ou lega para o futuro, uma grande responsabilidade de garantir que o investimento se torne rentável pelo usufruto dos cidadãos e por qualquer objeto/bem comercial que possa ser vendido no local.

Contudo, se foi pela exceção que chegou aos nossos dias as ruínas da primeira central hidroelétrica nacional e posteriormente colmatou uma visão de um projeto cultural ambicioso não se pode deixar de pensar que existiu até há pouco tempo na cidade um outro edifício de raridade modernista, um outro património industrial que, apesar de apelos nacionais e internacionais, foi deixado de lado por falta de interesse pois nessa altura a visão cultural local sobrepôs a valorização de um parque de estacionamento à preservação da Panificadora – Panreal, uma das últimas arquiteturas modernistas do Arquiteto e Artista Nadir Afonso, em que nem a estética arquitetónica que remetia para um modernismo ao estilo de Corbusier e Niemeyer foi justificativo para a sua preservação, apesar de em tempos também ter havido intensão de classificação patrimonial.

Reconhecer valores patrimoniais e protegê-los implica saber evoluir e não necessariamente ter de comprar ou demolir! Não deixa de ser curioso que a valorização de arquiteturas com o objetivo de reconhecimento através de ostentosos prémios de mérito é algo que poderá permitir a conservação de edifícios antigos, lembrando assim aquele concurso que a Câmara Municipal de Vila Real participou em que atribuiu um prémio de arquitetura para um projeto de reabilitação da Panreal e até se atreveu na altura a anunciar um belíssimo museu do Circuito Internacional de Vila Real para aquela edificação. Claro que com tanta “velocidade perigosa” depressa os prémios, os desejos e vontades se ofuscaram e as costas foram viradas a um património que detinha grande valor cultural para Vila Real, para o Distrito e para o País.

Apesar de tudo e do mérito deste novo espaço museológico na cidade o brilho da Central de Biel encandeia as vistas, e outros patrimónios ficam no lusco-fusco das intenções.

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