Quinta-feira, 30 de Junho de 2022
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Mercados patrióticos

A Liga Inglesa de 2018/2019 vai encurtar a janela de transferências de importação. Isto significa que os clubes ingleses terão de fechar os negócios relativos a contratação de novos jogadores antes do apito inicial do primeiro jogo agendado para aquela época.

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No entanto, muito pouco ainda foi definido em termos de exportação que continuará a ser permitida dentro das regras dos mercados adquirentes de talentos britânicos. Na prática, faz-se aquilo que tantas vezes a Inglaterra tem feito e – curiosamente – com mais prejuízos para a generalidade dos ingleses do que propriamente com benefícios líquidos: os entraves à importação.

Quando a Inglaterra, em meados do Século XIX, decidiu barrar/dificultar a importação da maquinaria germânica, que chegava aos portos britânicos com a reputação de fiável e duradoura, usou de várias ferramentas – desde decretos reais até vandalização. Foi nesse período que surgiu o rótulo ‘Made in…Germany’ com intenções xenófobas que visavam encarecer a aquisição de material alemão com custos de depreciação social. O problema é que virou-se o feitiço contra o feiticeiro – e o rótulo depreciativo acabou, na prática, por se transformar num slogan mediático que acelerou a identificação das importações vindas da Alemanha e consequentemente a sua aquisição pelos pequenos industriais e clientes domésticos ingleses. Como vários autores de então comentavam, o patriotismo é mais fácil de vingar nos campos de batalha do que nas casas dos soldados.

Dado o peso económico do mercado inglês no mundo do futebol, sobretudo em termos de folha salarial e de negociação dos direitos televisivos, a colocação de entraves de janela temporal vai, na prática, fazer render ainda mais o negócio daqueles que estão dispostos a alargar as barreiras para quem está disposto a pagar. Já que não vai ser tão fácil esperar pelos dias finais de agosto para o encerramento das contratações, o valor a pagar pela observação e agenciamento dos jogadores deve subir claramente. Os ‘Managers’ pensarão – queremos os melhores jogadores quanto antes! E por isso, toda a equipa de scouting espalhada pelo mundo vai exigir compensações adequadas pela descoberta mais cedo do maior diamante – polido ou em bruto. 

E o que ficará para as restantes ligas? Os grandes clubes procurarão assegurar as melhores aquisições quanto antes como tem sido até agora, pois, além da pressão do agenciamento e da instabilidade dos rumores haverá adicionalmente a certeza de que uma Liga importante fechará o seu mercado de aquisições mais cedo. Os ‘bons jogadores’ sobrantes da Liga inglesa curiosamente ficarão a perder – nada pior no jogo da reputação ter fama de ‘admissível’ e depois não ser admitido. Este tipo de situações leva a uma desvalorização significativa do bem ou serviço em causa que pode cair para mercados terciários. E é aqui que entra Portugal, que poderá ficar a ganhar com as ‘pechinchas’ – jogadores com nível de Liga Milionária mas que, por mau agente, mau tempo ou má sorte, não conseguiram inscrição na Liga desejada, no devido tempo. Afinal, quando a lotação de um bar está no limite máximo, existirá sempre não muito longe algum outro disposto a servir um café.

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