Quinta-feira, 30 de Junho de 2022
Armando Moreira
Armando Moreira
| MIRADOURO | Ex-presidente da Câmara Municipal de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O Estado da Nação

Instalou-se o hábito de encerrar o ano legislativo da Assembleia da República, com o debate sobre o “Estado da Nação”, a exemplo do que se faz lá por fora em regimes democráticos consolidados.

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Parece-nos uma boa prática esta, de uma vez por ano pensar o país no seu todo. Infelizmente porém, raramente o conteúdo da conversa atinge os seus fins, porque os interlocutores – governo, partidos que o apoiam e oposição – não se dão ao trabalho de passar a pente fino os “dossiers” da governação – Ministério a Ministério – dando a conhecer ao país em que medida os programas do governo estão a ser cumpridos e a oposição a lembrar o que ainda não tenha sido feito e a sugerir, eventualmente, outras medidas que tomaria, em tal ou tal setor.

As horas de debate a que se assistiu nesta semana que passou, pouco tiveram a ver com o país real, mas apenas com um país imaginário que só existe de facto no hemiciclo onde se sentam os 230 deputados, que se esforçam, isso é bem notório, em fazer-se ouvir, para na comunicação social – essa sim, a verdadeira destinatária das palavrosas discussões e das tiradas mais ou menos engenhosas das criaturas que nos representam.

Uma palavra que fosse, sobre o estado da agricultura, da silvicultura, da pecuária, da indústria, do comércio, das vias de comunicação, da educação, da saúde, da segurança interna e externa… esse debate não existiu.

O que existiu, e nos merece um breve comentário, foi uma mini-remodelação governamental, dois dias depois, ao nível de Secretários de Estado.

Tomámos boa nota, que foi criada uma Secretaria de Estado com a designação de Secretaria de Estado das Florestas e do desenvolvimento rural, na dependência do Ministério da Agricultura, que foi entregue a um engenheiro agrícola, que tem feito a sua vida pelo Algarve. Desejamos-lhe, boa sorte.

Mas, não deixamos de nos inquietar, com a dimensão da sua tarefa. Bastar-lhe-ia as florestas, sendo certo que mais de 50% do território nacional não tem nesta altura outra aptidão, que não seja a floresta. Agora juntar-lhe também o Desenvolvimento Rural, parece-nos tarefa impossível de ser levada a cabo por apenas um setor, ainda para mais, ao nível de Secretaria de Estado.

Ou será que quem imaginou esta remodelação entende que o desenvolvimento rural é só floresta? Não. O mundo rural, embora muito desprezado de facto, existe e necessita de medidas muito urgentes para que se faça a sua revitalização, não apenas com a floresta, mas também e sobretudo, na agricultura, na pecuária, na indústria, repetindo-nos: fazendo o “desenvolvimento rural integrado” que tantas vezes temos abordado.

Não nos parece séria esta aposta, como não nos pareceu sério o debate sobre o Estado da Nação.

É o Estado que temos.

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