Sábado, 13 de Agosto de 2022

O lítio e o futuro do Barroso

Li neste jornal um artigo de opinião, de Armando Moreira, sobre a exploração de lítio enquanto potencial agente enriquecedor da região do Barroso, onde é apresentado o exemplo dos países árabes e dos lucros feitos com o petróleo. Na verdade, o que aconteceu nessas sociedades foi que enquanto uma ínfima percentagem de indivíduos enriquecia, a esmagadora maioria da população continua numa condição de miséria, ignorância e servidão.

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Afirmar que o lítio é importante para a sustentabilidade ambiental e depois defender a sua exploração numa região reconhecida internacionalmente pelo seu património natural e agrícola, é, falando corretamente, “dar uma no cravo e outra na ferradura”.  Justificar assim a extração do minério no território barrosão, sabendo que vai contaminar irremediavelmente as águas, rasgar para sempre as serras e pôr em causa um modo de vida milenar, é falacioso.

O argumento da competitividade entre o Ocidente e a China é uma espécie de assombração da Guerra Fria que tem servido para justificar todo o tipo de atrocidades. Tenta-se enquadrar a destruição do Barroso num conflito internacional, um sacrifício necessário para alcançar a supremacia europeia. Isto é simplesmente desonesto. Critica-se a China pelas suas violações dos direitos humanos e poluição galopante, para depois se apontar como um modelo a seguir quando convém a alguns interesses privados.

Apresentar a exploração do lítio em Portugal como “irreversível” é espezinhar o direito das populações de decidirem o futuro das suas terras. Dizer-lhes que essa matéria-prima vai trazer empregos e eliminar as assimetrias de desenvolvimento é atirar-lhes areia para os olhos. Sobretudo quando foi demonstrado, uma e outra vez, que os lucros da cadeia de produção não ficam nas regiões de extração dos minérios. Sacrificar o sustento das comunidades pela riqueza de um pequeno grupo de CEO’s e de políticos com os olhos no próprio umbigo, é este o futuro que queremos para o Barroso?

O grande desafio, é dizer não à exploração do lítio na região. É combater a retórica de pacotilha, que encontra terreno fértil na ignorância e no desespero, emanada por alguns importantes sem qualquer interesse pelas populações.

Um ecossistema equilibrado, alimentado por serras abundantes em água. Um modo de vida moldado por séculos de história, com base na valorização do património cultural, agrícola e natural da região, capaz de assegurar a prosperidade do povo barrosão. Este sim é o futuro que queremos para o Barroso.

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