O lítio e o futuro do Barroso

Li neste jornal um artigo de opinião, de Armando Moreira, sobre a exploração de lítio enquanto potencial agente enriquecedor da região do Barroso, onde é apresentado o exemplo dos países árabes e dos lucros feitos com o petróleo. Na verdade, o que aconteceu nessas sociedades foi que enquanto uma ínfima percentagem de indivíduos enriquecia, a esmagadora maioria da população continua numa condição de miséria, ignorância e servidão.

Afirmar que o lítio é importante para a sustentabilidade ambiental e depois defender a sua exploração numa região reconhecida internacionalmente pelo seu património natural e agrícola, é, falando corretamente, “dar uma no cravo e outra na ferradura”.  Justificar assim a extração do minério no território barrosão, sabendo que vai contaminar irremediavelmente as águas, rasgar para sempre as serras e pôr em causa um modo de vida milenar, é falacioso.

O argumento da competitividade entre o Ocidente e a China é uma espécie de assombração da Guerra Fria que tem servido para justificar todo o tipo de atrocidades. Tenta-se enquadrar a destruição do Barroso num conflito internacional, um sacrifício necessário para alcançar a supremacia europeia. Isto é simplesmente desonesto. Critica-se a China pelas suas violações dos direitos humanos e poluição galopante, para depois se apontar como um modelo a seguir quando convém a alguns interesses privados.

Apresentar a exploração do lítio em Portugal como “irreversível” é espezinhar o direito das populações de decidirem o futuro das suas terras. Dizer-lhes que essa matéria-prima vai trazer empregos e eliminar as assimetrias de desenvolvimento é atirar-lhes areia para os olhos. Sobretudo quando foi demonstrado, uma e outra vez, que os lucros da cadeia de produção não ficam nas regiões de extração dos minérios. Sacrificar o sustento das comunidades pela riqueza de um pequeno grupo de CEO’s e de políticos com os olhos no próprio umbigo, é este o futuro que queremos para o Barroso?

O grande desafio, é dizer não à exploração do lítio na região. É combater a retórica de pacotilha, que encontra terreno fértil na ignorância e no desespero, emanada por alguns importantes sem qualquer interesse pelas populações.

-PUB-

Um ecossistema equilibrado, alimentado por serras abundantes em água. Um modo de vida moldado por séculos de história, com base na valorização do património cultural, agrícola e natural da região, capaz de assegurar a prosperidade do povo barrosão. Este sim é o futuro que queremos para o Barroso.

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