Alina Sousa Vaz
Alina Sousa Vaz
Vereadora do PSD na Câmara Municipal de Vila Real

A falência da maledicência

Há pessoas que fazem política com ideias, com trabalho, propostas, convicções e capacidade para agregar.

E depois há aqueles que fizeram da maledicência uma profissão de fé. Não constroem. Comentam. Não apresentam soluções. Suspeitam. Não mobilizam. Dividem. E, sobretudo, não conseguem resistir à irresistível tentação de falar sobre os outros.

É uma existência curiosa. Enquanto uns discutem o futuro da sua terra, outros passam os dias a fazer contas às conversas alheias, aos almoços, às amizades e às escolhas dos outros. É uma espécie de contabilidade sentimental da política, extenuante e profundamente inútil.

A maledicência tem, aliás, uma característica fascinante: apresenta-se disfarçada de superioridade moral. O maledicente nunca está simplesmente a dizer mal. Está sempre, segundo ele, a defender princípios, a proteger instituições, a exigir ética, a salvar partidos ou a regenerar a democracia. Tudo isto entre duas insinuações. É um serviço público incompreendido.

O problema começa quando a maledicência deixa de provocar indignação e passa apenas a provocar um encolher de ombros. Porque até o ruído tem prazo de validade.

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Pode durante algum tempo gerar curiosidade. Mas chega o momento em que as pessoas percebem que, por detrás de tanto dramatismo, não existe nada.

Nenhuma ideia. Nenhum projeto. Nenhuma capacidade de mobilização. Nenhuma alternativa. Apenas azedume. E talvez seja essa a verdadeira falência da maledicência: descobrir que ninguém está propriamente interessado.

Há quem passe anos convencido de que ocupa o centro do palco quando, na realidade, a plateia já saiu. Continua a representação falando mais alto, aumentando o tom, multiplicando acusações, procurando novos culpados e inventando novas conspirações. Tudo na esperança de recuperar uma atenção que já não tem. A política, porém, continua lá fora. Continua nas pessoas que trabalham, nas equipas que se organizam, nos militantes que vão aumentando e que participam, nos autarcas que dão a cara, nos que estudam dossiers, apresentam propostas, discutem soluções e procuram construir alternativas. E é precisamente aí que se percebe a diferença fundamental entre fazer política e falar permanentemente sobre quem a faz.

Uma organização política saudável não é aquela onde todos pensam exatamente da mesma maneira, mas, com maturidade, diferentes sensibilidades trabalham.

É muito menos excitante do que a intriga, reconhecemos. Não produz grandes teorias e conversas conspirativas, e não oferece protagonistas aos eternos especialistas em divisões imaginárias. Mas produz uma coisa bastante mais importante: resultados.

Por isso, talvez alguns continuem a procurar conflitos onde existe diálogo, divisões onde existe pluralidade e guerras onde simplesmente existem pessoas diferentes a trabalhar pelo mesmo objetivo.

Quando se vive demasiado tempo da intriga, a normalidade parece suspeita. E, no fim, sobra uma pergunta muito simples. Depois de tantos anos a dizer mal dos outros, o que ficou?

Se a resposta for apenas mais um artigo, mais uma insinuação e mais uma tentativa desesperada de conseguir atenção, então talvez não estejamos perante uma crise da política. Estamos apenas perante aquilo que o título já anunciava: a falência da maledicência.

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