O teu tempo não é para doar

São 7h45. O turno começa às 8h00, mas Luísa já está na empresa. Veste a farda, coloca os equipamentos de proteção, prepara as ferramentas e percorre os corredores até ao posto de trabalho, porque às 8h00 tem de estar pronta a produzir. No final do turno, repete tudo em sentido inverso, já depois do horário de saída. Todos os dias oferece ao patrão minutos da sua vida, e nem sequer sabe que está a ser privada de um direito.

É esta realidade que o SINTAB está a combater com a campanha nacional “O teu tempo não é para doar!”.

Na indústria alimentar, particularmente em Trás-os-Montes, são muitas as empresas onde os trabalhadores têm de vestir fardas, colocar equipamentos de proteção, cumprir regras de higiene ou preparar ferramentas antes de iniciar a produção. Em algumas, existem mesmo instruções para que se apresentem completamente preparados “ali uns cinco minutinhos antes” do início do horário de trabalho.

Mas vejamos… Se é a empresa que exige estes procedimentos para que o trabalho possa ser realizado, por que razão há de ser o trabalhador a oferecer o tempo necessário?

A verdade é que muitos trabalhadores desconhecem este direito. Outros, mesmo depois de esclarecidos, receiam reivindicá-lo. Afinal, questionar uma prática imposta durante anos exige coragem, sobretudo quando existe o medo de represálias.

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E é precisamente aqui que entra o Sindicato. Não cabe aos trabalhadores encontrar soluções para reorganizar a produção, alterar procedimentos ou compatibilizar horários. Essas são responsabilidades das empresas. Aos trabalhadores cabe exigir que o seu tempo seja respeitado.

No lançamento desta campanha, o SINTAB esteve em quase 30 empresas, de Melgaço a Olhão, percorrendo todos os distritos do país, sem exceção. Até agora, já realizámos ações em mais de 50 empresas, abrangendo mais de 10 mil trabalhadores.

Estes números mostram a dimensão de um problema que durante demasiado tempo foi tratado como normal, mas o facto de uma injustiça se repetir durante anos não a transforma num direito patronal.

Dez, quinze, ou vinte minutos por dia parecem pouco. Multiplicados por meses e anos, são horas de vida entregues gratuitamente a quem já beneficia do nosso trabalho.

Nenhum trabalhador deve enfrentar sozinho esta reivindicação. A força para mudar práticas injustas nasce do esclarecimento, da solidariedade e da organização coletiva.

Se também chegas mais cedo para te preparares ou sais mais tarde para mudar de roupa ou até mesmo tomar banho, fala com o SINTAB. Informa-te, organiza-te e reivindica.

O salário paga o trabalho. Não compra o nosso tempo de vida. E o tempo que é nosso não é para doar!


Sandrina Santos (Dirigente Nacional do SINTAB)

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