Domingo, 17 de Outubro de 2021
Luís Pereira
Historiador e Arqueólogo. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Património e o futuro (I)

Como não falar sobre património local se temos a ele direito e para com ele o dever de conhecer, proteger, usufruir e legar às futuras gerações de algo que perdurou até aos nossos dias?

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A história, as estórias contadas à lareira ao longo de gerações, e, no agora um monumento quando no passado foi uma arquitetura com uma determinada função, é uma existência que marca a identidade de um povo, de uma freguesia e de um concelho.
Então porque não falar sobre o património local que foi construído em diferentes períodos da nossa história e que existem, e alguns existiram até há pouco tempo em nosso redor? O não aceitar que algo velho e degradado possa ter um valor histórico-cultural é cair no engano de que tem, forçosamente, de desaparecer da vista de todos para que algo moderno possa ser criado em seu lugar. Este pensamento é o que caracteriza a evolução da cidade de Vila Real, que nunca soube crescer a partir da sua história, tímida e envergonhada que nem querem recordar. Pode-se invocar as pedras de uma calçada que abordei no “Cuidado onde pisam” (in jornal A Voz de Trás-os-Montes (VTM) de 8 de abril de 2021) ou até na “lista negra do património” (in VTM de 2 de setembro de 2020). Há uma diferença entre reabilitar e requalificar um património, seja uma avenida ou uma ponte medieval-moderna, quando os conceitos apenas figuram no papel e não na ação que implica a destruição e/ou alteração do existente. Isto não é requalificar nem reabilitar, é pura e simplesmente construir de novo!

Intervir num património não deve ser prioritário quando nos aproximamos da época de eleições, pois o planeamento pensado apenas para ser visto pode ter um resultado desastroso para o património cultural e para os cidadãos. O património independentemente do oportunismo tem de ser conhecido, estudado, inventariado, procurado e divulgado, e isso é feito através de um bom planeamento, da proteção e da investigação para salvaguardar o que têm de mais valor e conhecer o que é destruído para sempre. As políticas culturais orientadas para a preservação de memórias, espaços e materialidades devem também ser prioritárias, para que com consciência lúdica possam transmitir valores de presença e assim ajudar a fomentar a permanência de população jovem no território. É uma tarefa de grande responsabilidade quando visto assim, pois demonstrar que cultura é apenas teatro, concertos e festas rodeadas de obras de arte realizadas em plena rua só afirmam publicamente o intelectualismo de ocasião. Proteger o património local implica saber, conhecer, identificar e estar em relação com a planificação urbanística, pois é possível compatibilizar novas construções e até englobar as pré-existências em novos projetos, isto quando existe um plano de pormenor que garanta para o caso de um centro histórico que se mantenha arquiteturas antigas, espaços públicos, áreas industriais e que reabilitem espaços através de novas utilizações, tal como já alertado no “Falta um pormenor” (in VTM de 6 de maio 2020).

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