Não as minhas, como é obvio. As minhas são sensatas e ponderadas. Eu sou prudente e ajuizado. E quase todos os outros são tolos!
A generalidade das pessoas considera-se pacífica. Está concentrada em viver feliz e tão prosperamente quanto possível. Acha que a sociedade deve ser livre e apenas limitar-se a um conjunto de regras, ou leis, que melhor permitam a coexistência. Contudo, a liberdade é um conceito assimétrico que significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Tanto que muitas vezes esta sociedade, cheia de pessoas sensatas, passa o tempo a apontar o dedo às atitudes e opiniões extremas, cruéis até, dos seus compatriotas. Portanto, se a maioria é boa, de onde vem toda esta maldade?
A verdade é mais complexa, como é obvio. As relações sociais têm uma componente política. E a política é um exercício, também, de poder. A dificuldade reside então na perceção das nossas ideias por parte daqueles que não são como nós. Ou seja, os outros. E os outros acham, e bem, que as posições dos seus adversários políticos podem chegar a ter força de execução, à qual terão de obedecer, mesmo que contrariados. A partir deste momento, examinamos as posições dos nossos adversários de outra forma. Vou dar exemplos.
Há quem defenda menos poder para a polícia e penas mais curtas, lembrando abusos, maus-tratos e até mortes às mãos de agentes do Estado, bem como erros judiciais que encarceram inocentes. Do outro lado, há quem diga temer sair à rua, veja na polícia o único escudo contra o crime e tema que a inação das autoridades seja um convite a roubos, agressões e homicídios. Há quem sustente que a autonomia familiar é essencial na educação e que atribuir demasiado poder aos professores e ao sistema pode abrir espaço à doutrinação com valores contrários aos da família e até a abusos psicológicos, ou físicos, por parte de docentes. Já do outro lado, há quem tema que transferir poder excessivo para as famílias torne a escola incapaz de cumprir o seu currículo e legitime um excesso de autoridade parental, com hostilização de professores, campanhas de intimidação e até violência de alunos contra quem ensina. Para uns, devem existir limites que criminalizem o discurso de ódio, para proteger pessoas-alvo de incitação à violência e discriminação, preservando o espaço público como lugar seguro. Para outros, criminalizar palavras é o primeiro passo para a censura: hoje proíbe-se o ódio “óbvio”, amanhã criminalizam-se dissensos políticos. Quem define a fronteira?
Não me interpretem mal. Não sou equidistante em nenhum destes assuntos, tenho opiniões sobre eles e tomo partido por uns relativamente a outros. Contudo, a justaposição destas perceções opostas serve para exemplificar as suspeitas do que as nossas próprias opiniões podem criar na comunidade. E como elas, apesar de as podermos considerar justas, e até pacíficas, podem desencadear sentimentos e conjeturas de imposição de violência pelos outros, direta ou indiretamente. Isso tornou-se talvez mais visível agora, porque vivemos num mundo online e numa TV saturada de discursos emocionais, muitas vezes sem contraditório, onde favorecemos os nossos heróis, onde reforçamos os nossos medos e não testamos as nossas convicções, reduzindo os nossos adversários, e a nós próprios por inerência, a seres unidimensionais, avatares dos nossos ódios de estimação.




