Terça-feira, 16 de Junho de 2026
João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

Prenúncio de violência em agendas de paz

Não me consigo desprender da sensação de que as convicções das pessoas que me rodeiam, assim como daquelas com as quais vou contactando ao longo dos anos, se têm vindo a extremar.

Não as minhas, como é obvio. As minhas são sensatas e ponderadas. Eu sou prudente e ajuizado. E quase todos os outros são tolos!

A generalidade das pessoas considera-se pacífica. Está concentrada em viver feliz e tão prosperamente quanto possível. Acha que a sociedade deve ser livre e apenas limitar-se a um conjunto de regras, ou leis, que melhor permitam a coexistência. Contudo, a liberdade é um conceito assimétrico que significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Tanto que muitas vezes esta sociedade, cheia de pessoas sensatas, passa o tempo a apontar o dedo às atitudes e opiniões extremas, cruéis até, dos seus compatriotas. Portanto, se a maioria é boa, de onde vem toda esta maldade?

A verdade é mais complexa, como é obvio. As relações sociais têm uma componente política. E a política é um exercício, também, de poder. A dificuldade reside então na perceção das nossas ideias por parte daqueles que não são como nós. Ou seja, os outros. E os outros acham, e bem, que as posições dos seus adversários políticos podem chegar a ter força de execução, à qual terão de obedecer, mesmo que contrariados. A partir deste momento, examinamos as posições dos nossos adversários de outra forma. Vou dar exemplos.

Há quem defenda menos poder para a polícia e penas mais curtas, lembrando abusos, maus-tratos e até mortes às mãos de agentes do Estado, bem como erros judiciais que encarceram inocentes. Do outro lado, há quem diga temer sair à rua, veja na polícia o único escudo contra o crime e tema que a inação das autoridades seja um convite a roubos, agressões e homicídios. Há quem sustente que a autonomia familiar é essencial na educação e que atribuir demasiado poder aos professores e ao sistema pode abrir espaço à doutrinação com valores contrários aos da família e até a abusos psicológicos, ou físicos, por parte de docentes. Já do outro lado, há quem tema que transferir poder excessivo para as famílias torne a escola incapaz de cumprir o seu currículo e legitime um excesso de autoridade parental, com hostilização de professores, campanhas de intimidação e até violência de alunos contra quem ensina. Para uns, devem existir limites que criminalizem o discurso de ódio, para proteger pessoas-alvo de incitação à violência e discriminação, preservando o espaço público como lugar seguro. Para outros, criminalizar palavras é o primeiro passo para a censura: hoje proíbe-se o ódio “óbvio”, amanhã criminalizam-se dissensos políticos. Quem define a fronteira?

-PUB-

Não me interpretem mal. Não sou equidistante em nenhum destes assuntos, tenho opiniões sobre eles e tomo partido por uns relativamente a outros. Contudo, a justaposição destas perceções opostas serve para exemplificar as suspeitas do que as nossas próprias opiniões podem criar na comunidade. E como elas, apesar de as podermos considerar justas, e até pacíficas, podem desencadear sentimentos e conjeturas de imposição de violência pelos outros, direta ou indiretamente. Isso tornou-se talvez mais visível agora, porque vivemos num mundo online e numa TV saturada de discursos emocionais, muitas vezes sem contraditório, onde favorecemos os nossos heróis, onde reforçamos os nossos medos e não testamos as nossas convicções, reduzindo os nossos adversários, e a nós próprios por inerência, a seres unidimensionais, avatares dos nossos ódios de estimação.

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