O projeto eGuard, desenvolvido pela GNR, em articulação com os municípios, está a ser implementado em várias localidades do país e assume particular relevância em territórios do interior, onde o isolamento da população idosa é mais acentuado. Em Lamego, a iniciativa começou a ser implementada há pouco tempo, mas o feedback por parte da população é positivo, até porque o objetivo é reforçar a segurança e a resposta rápida em caso de emergência junto dos idosos que vivem sozinhos ou em situação de maior vulnerabilidade.
O sistema baseia-se num dispositivo portátil com um botão de emergência, que o utilizador transporta consigo no dia a dia. Em caso de necessidade, basta acionar o botão para estabelecer contacto imediato com a central de comunicações da GNR. A partir daí, é feita a avaliação da situação e acionados os meios adequados, podendo envolver forças de segurança, meios de socorro ou apoio social, dependendo do caso.
A seleção dos beneficiários é feita com base em critérios de vulnerabilidade, nomeadamente idosos que vivem sozinhos, em isolamento geográfico ou com reduzida rede familiar de apoio. Em muitos casos, os utilizadores já eram acompanhados pela GNR ou pelos serviços sociais, o que facilita a identificação dos potenciais beneficiários.
RESPOSTA IMEDIATA
O funcionamento do eGuard assenta na simplicidade e na rapidez de resposta. O utilizador transporta consigo um botão de emergência, que deve ser carregado regularmente (à noite, preferencialmente) e utilizado sempre que necessário. Em caso de o botão ser acionado, é estabelecida uma ligação direta com a central da GNR, que identifica o utilizador através de um número associado ao dispositivo e procede à avaliação da ocorrência. É semelhante a um telefonema, porque é estabelecida uma chamada, em que o idoso consegue falar com quem está na central.
Dependendo da situação, pode ser acionada uma ambulância, as forças de segurança ou os serviços de apoio social. Em situações de menor gravidade, o contacto pode servir apenas para verificação do estado do utilizador, funcionando também como um mecanismo de acompanhamento e proximidade.
MAIS SEGURANÇA
Os testemunhos recolhidos junto dos beneficiários apontam para uma sensação reforçada de segurança e tranquilidade, ao referirem que o dispositivo lhes dá confiança para permanecerem sozinhos em casa, sobretudo em situações em que não dispõem de apoio imediato.
“É bom porque dá sinal se for preciso alguma coisa. Se cair ou se me sentir mal, é mais rápido do que estar à procura do telefone”, refere José Maria, que vive sozinho há um ano, após a morte da companheira de longa data. Com os três filhos longe, este botão “é muito importante e faz-me sentir mais seguro”.
No dia em que o visitámos, tinha um dos filhos a fazer-lhe companhia. Estava de visita por ocasião do aniversário do pai. Sobre este sistema, Henrique confessa que “como estamos longe, sentimo-nos mais descansados. É só carregar e eles respondem do outro lado. Sabemos que há sempre alguém pronto a ajudar”.
“O meu dia é aqui sozinho. Já não posso andar muito e com o botão estou mais descansado. Vêm cá as senhoras do lar, trazer-me a comida, mas de resto estou por aqui, nem recebo visitas. Nem os vizinhos vêm cá saber se preciso de alguma coisa”, confessa José Maria, com o filho a revelar que “eu e os meus irmãos, quando cá vimos, comprámos algumas coisas para ele ter aqui, como o leite, por exemplo. Coisas com muita validade. De resto, é mais difícil”.
Ainda sobre o botão, “há dias, estava na cozinha e, sem querer, encostei-me à mesa e aquilo fez a chamada. Fiquei um pouco atrapalhado e disse à GNR que estava tudo bem, que tinha sido sem querer”, afirma José Maria.
Numa outra aldeia, Maria de Lurdes e o irmão, José Ventura, são também beneficiários. “Não dá muito jeito andar com isto ao pescoço, mas tem de ser”, afirma Maria de Lurdes.
“A GNR veio aqui explicar como se usa e que de noite devemos pôr a carregar. Como vivemos sozinhos, é bom saber que este botão nos pode ajudar”, acrescenta José Ventura, dando conta que, tal como aconteceu com José Maria, também eles já o acionaram sem querer. “Eu ouvia alguém a falar, mas não sabia quem era. Depois é que me apercebi que era no botão e lá disse que foi sem querer. Era a minha irmã que andava com ele.”
Em vários casos, os utilizadores sublinham também o papel das visitas de acompanhamento realizadas pela GNR, que permitem verificar o estado de saúde e as condições de vida dos idosos. Estas visitas são vistas como um complemento importante ao dispositivo, reforçando a ligação entre as autoridades e a população mais envelhecida.
ISOLAMENTO
Para os técnicos envolvidos, o eGuard não se limita a uma ferramenta tecnológica de emergência, assumindo também uma forte dimensão social. O projeto permite identificar situações de isolamento, fragilidade ou carência de apoio, funcionando como um ponto de contacto entre os idosos e a rede institucional.
Em alguns casos, a utilização do dispositivo ou o acompanhamento associado permitiu detetar necessidades adicionais, como apoio domiciliário, acompanhamento de saúde ou dificuldades na realização de tarefas diárias. Estas situações são encaminhadas para serviços sociais ou outras respostas adequadas, reforçando o caráter integrado do projeto.
“Nós não estamos apenas a responder a emergências. Estamos também a perceber outras necessidades, desde o apoio com as compras até ao acompanhamento social”, refere fonte da autarquia.
O isolamento da população idosa é apontado como um dos principais desafios sociais em territórios do interior. Em muitos casos, os idosos vivem sozinhos ou dependem de familiares que residem longe, o que dificulta o acompanhamento regular.
O eGuard surge, neste contexto, como uma resposta complementar às estruturas tradicionais de apoio, permitindo uma ligação mais imediata em situações de urgência e contribuindo para reduzir o sentimento de solidão.
O projeto encontra-se já implementado em vários municípios e integra diferentes perfis de utilizadores, desde idosos isolados a pessoas com mobilidade reduzida ou doenças crónicas. Em alguns casos, a atribuição é feita de forma urgente, sempre que se identifica uma situação de maior risco.
Apesar de algumas limitações iniciais relacionadas com critérios de elegibilidade e enquadramento legal em casos específicos, o projeto tem vindo a ser consolidado como uma resposta relevante no reforço da segurança comunitária.
O financiamento do dispositivo pode variar consoante o modelo de implementação, existindo soluções apoiadas por municípios e outras desenvolvidas através de entidades privadas. Em Lamego, o projeto é suportado pela autarquia, em articulação com a GNR.
O projeto eGuard representa uma abordagem integrada entre segurança e ação social, reforçando a proximidade entre a GNR, as autarquias e a população idosa. Mais do que uma ferramenta tecnológica, assume-se como um instrumento de prevenção, acompanhamento e apoio, especialmente relevante em contextos de envelhecimento e isolamento.










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