Quinta-feira, 29 de Setembro de 2022

Andor que toca os céus “para nos aproximar de Deus”

Todos os anos, em setembro, a freguesia de Mouçós é palco de uma manifestação religiosa única. As festividades em honra de Nossa Senhora da Pena reúnem milhares de pessoas, umas movidas pela fé, outras para verem de perto a procissão de domingo, conhecida pelos andores monumentais.

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O mais alto, o da Senhora da Pena, tem cerca de 23 metros e pesa à volta de quatro toneladas. É erguido, em ombros, por mais de 100 pessoas e movido, a passo “de caracol”, ao longo de 800 metros. Quem o carrega fala num momento de enorme emoção e superação. “É um sentimento de grande fé e de manter viva a tradição. Quando se chega ao fim da procissão, as pessoas choram. É um momento arrepiante, não só para quem carrega o andor, mas também para quem assiste”, confessa Hilário Duarte.

E não há limite de idade para carregar o andor. “Quem é daqui, cresce com uma ligação muito forte à Senhora da Pena. Eu, quando era mais novo, estava mortinho para ter corpo para poder pegar no andor. Enquanto as forças deixarem, uma pessoa vai carregá-lo”, frisa, destacando que “a grande maioria são homens, mas já há algumas mulheres a fazê-lo”.

Também Libério Viamontes e João Afonso já carregaram o andor de Nossa Senhora da Pena, um momento difícil de descrever. “É um momento muito forte, até nos vêm as lágrimas aos olhos”, conta Libério, de 58 anos, acrescentando que “desde miúdos que vivemos esta festa e temos uma paixão muito grande pela Senhora da Pena. Este ano a romaria está de regresso e vamos fazê-la com todo o amor e carinho”.

João carregou o andor pela primeira vez quando tinha 18 anos. “Desde pequenino que ansiava esse momento, porque também via o meu pai e o meu irmão participarem”, refere. Hoje, com 22, ainda não consegue explicar o sentimento de carregar em ombros a Senhora da Pena. “Não há palavras para descrever, é algo memorável. Percorrer as ruas com ele aos ombros é algo que não se explica”, conta, admitindo que, depois de dois anos sem romaria, “já estamos com saudades”.

UNIÃO E DEVOÇÃO

“Quando não se conhece, pensa-se que é uma devoção um pouco estranha, mas depois dá-se valor”
MÁRCIO MARTINS
Padre

A procissão de domingo é, de facto, o ponto mais alto da romaria de Nossa Senhora da Pena. Há quem diga que os andores são tão altos para que aproximem os fiéis de Deus.
Quem vê a procissão “pode pensar que é um momento mais cultural, que é um desfile de andores, mas é muito mais que isso”, refere o padre Márcio Martins, explicando que “tem uma dimensão espiritual, até porque a ideia dos andores (tão altos) é para que possamos tocar os céus, para nos aproximarmos de Deus”.

E há até quem se aproxime “do vizinho”. “Há uma história que se passou numa aldeia de duas pessoas que não se falavam há anos. Chegada a altura da festa, era preciso arranjar quem carregasse o andor. Curioso que esses dois homens foram lado a lado e no final fizeram as pazes”. “Estamos a falar, talvez, do único lugar que une a freguesia de Mouçós e Lamares. Quando não se conhece, pensa-se que é uma devoção um pouco estranha e louca, mas depois de vivenciar a experiência, e ver como
mexe com a fé das pessoas, dá-se valor”, frisa.

HISTÓRIA

O culto em honra de Nossa Senhora da Pena, na freguesia de Mouçós e Lamares é muito antigo. Diz-se que deve ter cerca de três séculos. O que se sabe vai passando de boca em boca. “Provavelmente, o nome Senhora da Pena surgiu de Senhora da Penha. Está associado a um lugar rochoso, a um penhasco”, refere o padre Márcio, lembrando que “não há muita documentação sobre isso, mas diz-se que houve uma aparição em 1755, onde foi dito que construíssem uma capela em honra da Senhora da Pena e de São João Baptista, ainda que este, com o passar dos anos, tenha perdido protagonismo”.

A fé e a devoção a Nossa Senhora da Pena têm levado, todos os anos, milhares de pessoas à freguesia de Mouçós e Lamares e este ano não será exceção. De referir que a Romaria foi em 2020 semifinalista no concurso das 7 maravilhas da Cultura Popular.

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