Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2022
Luís Pereira
Historiador e Arqueólogo. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Ao longe e tão perto

Ao longe no horizonte tudo é perfeito, vê-se um oásis bonito e colorido no deserto, mas de perto apercebemo-nos que se trata de uma miragem, perseguiu-se uma ilusão, algo que não existe.

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Afinal há coisas que o comum dos mortais não vê mas que alguém garante que existe, sendo quase como uma prova de fé acreditar que algo está lá mesmo que não se veja.

Entre “choradinhos” ou “cunhas” o Barro Preto de Bisalhães viajou para o oriente, acompanhado por uma comitiva representativa dos vila-realenses para demonstrar que são os mais empenhados na preservação do património cultural local. Claro que não se pretende dar a conhecer os mestres oleiros, algo diferente daquele património da humanidade que dá a conhecer os Pauliteiros de Miranda ao vivo. Não, isso fica pelo território nacional pois o “mestre” oleiro camarário terá perdido a carruagem do expresso para oriente. Não se vê o plano de salvaguarda do Património Imaterial da UNESCO, mas acredita-se que está lá. Não é necessário as sinaléticas de cor castanho para indicações ecológicas, geográficas e culturais em conformidade com a legislação, nem dignas condições de trabalho dos postos de venda dos artesãos (onde apenas labora o mais novo oleiro oficial e reconhecido pela UNESCO), visto não ser do agrado da entidade que deve zelar pelo património local que este oleiro continue a trabalhar e a reclamar pelas mínimas condições de trabalho.

O Barro Preto figura na Expo Dubai junto da Calçada Portuguesa (em calcário e basalto), um outro bem cultural que cidade a pretendente a Capital Europeia da Cultura não quis assumir como património, desrespeitando a Resolução da Assembleia da República n.º 54/2018 que recomenda ao Governo a valorização da calçada portuguesa e da profissão de calceteiro, enquanto expressão artística e distintiva do nosso país, nem adotar políticas de conservação da calçada portuguesa que minimizem a sua degradação, sem prejuízo da incorporação de materiais que melhorem a sua mobilidade, aderência e conforto, tanto nas zonas históricas como nas zonas recentes. Mas isto não fica bem numa capital de distrito que idealiza sair da área do Douro Vinhateiro-Património da Humanidade porque é incompatível construir em áreas protegidas, algo que compromete o futuro!

De perto vemos a inércia da tutela do património cultural pela incapacidade ou vontade de dar resposta às solicitações e de fazer cumprir com a lei de bases do património cultural, a cumplicidade entre diferentes instituições que promovem o património mais conveniente com obras que desfiguram a leitura do passado e a promiscuidade da política que leva a crer que são os mais empenhados na preservação da cultura e dos marcos culturais do país.

Ao longe, tudo parece bem!

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