Um belo exemplo é a história de Narciso, Deus dos Lagos, filho de Liríope e Cefiso. Apesar de muito apreciado desde cedo pelos que o rodeavam, Narciso não queria saber de ninguém, desprezando todos e não reconhecendo o valor de ninguém.
A sua sobranceria e arrogância isolaram Narciso que permanecia imóvel e rígido a apreciar o seu reflexo no rio. Apaixonou-se por si só e a sua cegueira impediram-lhe de reconhecer beleza e valor em tudo o quanto o rodeava, acabando por morrer com fome e sede, à beira da fonte de água onde via a sua imagem refletida. Este mito revela-nos os perigos do excesso de vaidade e de falta de empatia pelos outros.
Com as devidas adaptações e apropriações, esta lenda fez-me lembrar alguns comportamentos que vamos assistindo no nosso “burgo” dos atuais líderes políticos locais.
Pode, por exemplo, um presidente de câmara numa intervenção em ambiente festivo, mas solene e protocolar, de celebração do 98º aniversário da elevação de Vila Real a cidade, sobreavaliar o trabalho da sua equipa num período restrito da história recente (no caso 10 anos) esquecendo, menosprezando e desconsiderando o trabalho feito por centenas de pessoas, políticos, técnicos e operacionais em anos anteriores à sua chegada ao poder autárquico?
Pode, mas não é correto nem adequado. Infelizmente, não é o único a fazer este papel.
Desde as primeiras eleições autárquicas, realizadas em 1976 até 2013, o PSD governou os destinos do concelho de Vila Real, vencendo sempre as eleições autárquicas com grande margem de diferença para os restantes partidos.
Ora esta evidência não nos permite hoje dizer que a oposição nesse período não existiu. Certamente fez o seu trabalho, ajudando com a sua participação e atividade, os diversos executivos municipais do PSD a serem melhores e a obter melhores resultados para o bem-estar dos cidadãos que representavam e pelos quais foram eleitos.
Durante 37 anos, o concelho de Vila Real sofreu grandes transformações, primeiro na infraestruturação básica que foi necessário promover (construção de estradas, rede de saneamento básico, abastecimento de água, entre outras) e, numa segunda fase na criação de melhores condições de vida das pessoas, no apoio social, na cultura, no desporto e no apoio económico/empresarial. Para ajudar os mais necessitados, aumentar a empregabilidade, permitir às pessoas o acesso à cultura e ao desporto, melhorar a sua qualidade de vida.
Essa necessidade extrema de pretender fazer esquecer a história, contando-nos estórias, só pode ser o resultado da insegurança e intranquilidade sobre o trabalho feito e os resultados obtidos. Ambiguidade e fragilidade das medidas tomadas nos últimos tempos, e a incerteza e dubiedade sobre o futuro próximo.
A supervalorização de si próprio, a necessidade de reconhecimento e desvalorização dos demais, é um traço de caráter que em nada valoriza ou enobrece o homem.







