Quinta-feira, 7 de Julho de 2022
Armando Moreira
Armando Moreira
| MIRADOURO | Ex-presidente da Câmara Municipal de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Maiorias Silenciosas

Estes episódios que se viveram no país vizinho, a propósito da tentativa de declaração de independência na Catalunha, merecem naturalmente a atenção de todos nós.

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Em estadia recente, numa região limítrofe da zona em apreço – Valencia, apercebemo-nos como a sociedade em geral estava a viver apaixonadamente o tema, no caso, condenando expressamente o comportamento dos independentistas, que eram apodados de golpistas, e em particular o Presidente da Generalidat, tido como um aventureiro sem escrúpulos, a aproveitar-se do populismo que é hoje uma imagem de marca que os media muito apreciam. 

Foi por isso, com redobrada curiosidade que acompanhámos a sessão que decorreu no Parlamento Catalão durante o qual o Presidente do Governo se esforçava por justificar as razões pelas quais entendia que estava mais que autorizado pelo seu povo a declarar a CATALUNHA como uma República independente. O seu argumento mais sólido era o de que as ruas confirmavam o já demonstrado pelos resultados do referendo levado a cabo no dia 1 de outubro.

Ora, quanto a este, o que se viu transmitido em direto de vários locais de voto é que se tratou de um ato de pura sublevação, uma vez que nenhuma regra democrática, e muito menos legal, se percebeu que estivesse a ser cumprida. E, quanto às ruas, é sempre difícil comparar, os fenómenos de massas, organizados, como o nosso PCP e a Intersindical sabem fazer tão bem, com as maiorias silenciosas que raramente se manifestam em público, ou porque não são convocados, ou, simplesmente porque entendem que não é com arruaça que se resolvem as questões.

E esta, da Independência da Catalunha, não é uma questão, por mais justa que possa parecer, que se possa decidir, por votação de braço no ar. Tanto assim, que o líder independentista e presidente do Governo Regional, arrepiou caminho à ultima hora – o Jornal Expresso catalogou esta atitude como arrependência, não tendo apresentado nenhuma proposta sobre o assunto ao respetivo Parlamento, reunido expressamente com esta finalidade.

Voltemos, porém, à questão fundamental. Tem ou não a Catalunha direito a tornar-se independente? Em nossa opinião, a resposta é afirmativa: para ser uma Nação, como ensina a Ciência Política, basta que haja um território, população e poder político organizado, o que seguramente se verifica ali. Então o que é necessário mais? Quando há uns anos, na Região Autónoma da Madeira um movimento independentista começou a manifestar-se, recordamo-nos que foi a necessidade de fazer um referendo em todo o território nacional, e não apenas na parcela que se queria separar, devidamente escrutinado constitucionalmente. É esta a regra, sempre que um povo se queira separar do todo em que está integrado. Ora, pelo que se ouviu, não parece que os restantes povos espanhóis – galegos, bascos, andaluzes, castelhanos, estejam a ver com bons olhos a separação dos catalães, só porque se consideram mais ricos e com um território eventualmente, mais desenvolvido.

Onde está aqui a solidariedade que deve existir dentro de uma mesma nação? É justo que os mais ricos abandonem os mais desafortunados? Quando se fala em coesão territorial, não é disso que se trata também?

Enfim, uma fuga para a frente, que, em nosso entender, não passa de populismo, mal fundamentado. Vamos ver no que dá.

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