É inegável que Gaza representa um sofrimento humano intolerável, mas o português médio entende, e bem, que a presença de Mortágua no terreno dificilmente terá impacto concreto na vida dos palestinianos.
Em vez disso, a ida a Gaza serve, sobretudo, para reforçar a imagem de uma esquerda que prefere causas internacionais a respostas às dificuldades internas. A mesma esquerda que, durante anos, se afirmou como voz das lutas sociais em Portugal, parece agora cada vez mais desligada das preocupações imediatas dos portugueses e propaga uma ideia de esquerda moralista, porém ineficaz.
Eleitoralmente, perdem-se aqui muitos pontos em benefício da direita de Ventura. O discurso do líder do Chega incide, sistematicamente, em temas como criminalidade, imigração e corrupção, e, embora muitas vezes sem grande rigor, fá-lo de forma que gera identificação imediata.
Enquanto Mortágua promove a teatrada de viajar para Gaza, Ventura atua nos incêndios e, embora ambos os comportamentos sejam idênticos, o do último é sempre mais próximo às preocupações dos portugueses, munindo-se assim da proximidade emocional com quem, legitimamente, se sente esquecido.
O Bloco e a restante esquerda, devem entender que a política não se faz somente de causas justas, razão pela qual a procura por um palco moral mais elevado, materializado no exemplo desta visita de Mortágua a Gaza, pode não resultar na concretização do que estrategicamente se perspetivava.
Este comportamento político alimenta, sustenta e fundamenta a crítica recorrente de que a esquerda se encontra completamente alheia aos problemas reais e concretos dos portugueses, aos quais o Chega responde de forma simplista, mas com a convicção de quem terá grande eficácia.
Em consequência, a viagem e toda a ação que deveriam ser objeto de louvor, transformam-se, perante a atual conjetura política, numa ausência de credibilidade cada vez mais evidente, que se vinca a cada comportamento que ao relatado se assemelhe.
O cidadão comum pode até partilhar a indignação contra a situação palestiniana, mas o Bloco de Esquerda não consegue comunicar com um país que julga o partido, a sua coordenadora e todo o espectro político distante das preocupações dos portugueses.
Em sentido adverso, Ventura sabe explorar essa frustração, reforçando a perceção de que os partidos de esquerda alternativa vivem numa bolha distante da realidade.
Está mais que comprovado que Mariana tem pouca capacidade de pensamento político do ponto de vista estratégico e eleitoral. Aliás, os resultados das últimas legislativas são prova disso mesmo, se a assim prosseguir no que remanesce do mandato e não existir uma posição concreta e pública de afastamento por parte de Livre, PS e PCP, arrastará toda a esquerda com ela.






