Segunda-feira, 29 de Novembro de 2021
Júlia Rodrigues
Presidente da Câmara Municipal de Mirandela

Nova normalidade

O Rei Dom Afonso III deu à localidade de Mirandela a carta de foral a 25 de maio de 1250 e esta nobre Vila foi elevada a cidade a 16 de maio de 1984.  Estas referências, não encerram nenhum bacoco e exacerbado sentido de pertença, mas apenas, porque este ano não celebrei estas datas como […]

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O Rei Dom Afonso III deu à localidade de Mirandela a carta de foral a 25 de maio de 1250 e esta nobre Vila foi elevada a cidade a 16 de maio de 1984. 

Estas referências, não encerram nenhum bacoco e exacerbado sentido de pertença, mas apenas, porque este ano não celebrei estas datas como sempre o fiz, vi fazer e gostaria de continuar a fazer.

Esta nova normalidade, colocou-nos num cerco digital, num confinamento obrigatório, para alguns e num dever de recolhimento domiciliário global, que nos aperta a memória e ressuscita o sentido de uma liberdade autêntica, pura e necessária.

A era digital entra na casa de todos, inunda o nosso quotidiano de trabalho, através de reuniões onde a presença humana se substitui pela presença virtual ou por uma imagem inalcançável ao abraço saudoso e ao cumprimento afável. Nunca dispensei um sorriso e um singular aperto de mão, por um qualquer aceno ou desacertado cumprimento, sem expressão nem respeito. 

Sou transmontana e deliciam-me as pessoas. 

A sua nobreza de caráter e as feições humildes e únicas, que facilitam a comunicação e estabelecem laços, que se substituem a qualquer ata formal e rubricada. 

Os nossos mais velhos exasperam pela família, pelos amigos e por um saudável convívio de café, sendo que, nada disto está próximo e fácil. Ligam-se ao mundo da pior forma possível, através de modelos únicos de comunicação digital, mas sentem a falta do mais simples. 

Aquilo que está na nossa génese e é traduzido pelo pendor reflexivo, capaz de pensar os Homens e a arte de um modo direto e árido, como a planta que escolheu para apelido do seu pseudónimo, está em Miguel Torga, duma forma clara e insubstituível no volume IV do diário, A Criação do Mundo, onde escreveu que: “Quando a natureza desobedece às suas leis, é que tem milagres à vista…”. 

E nós, vamos desobedecendo à natureza e precisamos dum milagre. Os milagres são obra diária de Homens bons que, através de uma palavra, de um gesto e de uma atitude podem fazer a diferença na vida singular dum seu semelhante. Estamos, da mesma forma a produzir milagres diários, através da regular adaptação aos novos modelos de gestão da vida pessoal e profissional. Não abraçamos, mas sentimos como nunca. Acredito mesmo, que recuperamos a paixão da presença e da saudade, como já não me lembrava possível. Atendemos às necessidades dos mais carenciados, como há muito não o fazíamos e estendemos a mão a todos, por caminhos e travessias digitais, mas chegamos ao seu seio, colo, mesa e coração, como nunca devíamos ter deixado de fazer.

Fomos compelidos a desenvolver uma energia singular para ultrapassar o luto, a família próxima e a saudável convivência transmontana. Não iremos sair vencidos, pois sabemos quem somos e jamais esquecemos as raízes. Esta nova normalidade, apenas nos aproxima dum novo modelo de organização social, onde aprendemos a ser mais exigentes, mais destemidos, mais resilientes e tal como Darwin se referia à inteligência face à sobrevivência, não serão os mais inteligentes que o farão melhor, mas aqueles que mais rapidamente se adaptarem.

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