Quarta-feira, 10 de Junho de 2026
Orlando Rodrigues
Orlando Rodrigues
Presidente IPB

O Norte deve posicionar-se pela ciência e inovação para evitar a armadilha do bloqueio do desenvolvimento!

O conceito de “armadilha do desenvolvimento” tem vindo a ser utilizado em vários documentos prospetivos promovidos pela União Europeia, evidenciando o risco de bloqueio do desenvolvimento de algumas regiões da Europa.

Esta situação indesejável pode ocorrer em regiões em vários níveis de desenvolvimento. No essencial, define-se pela ocorrência de uma situação de bloqueio, de baixo crescimento face a outras regiões de três principais variáveis: PIB, produtividade e emprego. Nas regiões em situação de “armadilha do desenvolvimento”, à sub-performance do desempenho económico, associa-se um ambiente social de descontentamento e, frequentemente, de emergência de valores antidemocráticos.

Recentemente ocorreu a apresentação de algumas importantes publicações da União Europeia: as Orientações Políticas de Ursula von der Leyen e o 9º relatório da Comissão Europeia sobre coesão económica, social e territorial (março de 2024), o relatório Letta (abril 2024) e o relatório Draghi (setembro 2024), todos apelando para a necessidade de impulsionar urgentemente a competitividade da União Europeia. Em todos eles se reconhece o papel central da investigação e inovação (I&I) na concretização deste objetivo, considerado essencial para a sobrevivência da Europa.

O relatório Draghi sustenta que a Europa deverá reorientar profundamente os seus esforços coletivos para colmatar o fosso em matéria de inovação em relação aos EUA e à China. Evidencia que os sistemas de educação e formação na Europa estão a falhar em preparar a mão de obra para a evolução tecnológica e em responder com programas de qualificação ajustados às novas necessidades tecnológicas e às lacunas de competências identificadas. Mostra ainda uma enorme disparidade entre o investimento em I&D entre as regiões centrais da Europa, algumas já com investimento superior a 4% do PIB, enquanto outras, como o Norte e Portugal no seu todo, se mantêm muito abaixo dos 2%.

O 9º relatório da Comissão Europeia sobre coesão económica, social e territorial sustenta que há traços comuns às regiões bem-sucedidas, que evitam cair em situação de armadilha de desenvolvimento: qualidade das instituições científicas e investimento em I&D, capacidade de inovação e capital humano. O relatório analisa um índice geral de competitividade das regiões (RCI) que evidencia diferenças substanciais de competitividade entre regiões da europa. Em Portugal, apenas Lisboa se situa acima da média europeia.

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Porém, a região Norte, entre 2019 e 2022, é a segunda região europeia que mais sobe neste índice (+14 pontos), demonstrando neste período um notável dinamismo de convergência.

Mas o documento mais inspirador surgido recentemente (16 de outubro) é seguramente o relatório do grupo de especialistas (a que o anterior ministro Manuel Heitor presidiu) nomeado pela Comissão Europeia para realizar a avaliação intercalar do Programa Horizonte Europa.

O relatório Heitor (como é mais conhecido), intitulado “Agir, Alinhar, Acelerar”, pede uma abordagem ousada para o novo programa-quadro da ciência, duplicando o seu financiamento para 220 mil milhões de euros, fomentando um atrativo e forte ecossistema de investigação e inovação na Europa, aberto à cooperação internacional, tanto com a China e os EUA, como com regiões menos desenvolvidas, em particular África.
Certamente esta visão de futuro pode ser uma inspiração para a região Norte. Como demonstrou a evolução do índice regional de competitividade no período recente, a região tem a capacidade institucional de transformação, desde que beneficie dos incentivos certos.

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