De repente, lembram-se das associações, das comissões de festas, dos bombeiros, das bandas e remanescentes coletividades. Este ritual coreografado – como se houvesse um manual de instruções para aparecer na vida pública – é materializado pelos abraços e fotografias que se multiplicam, tudo com a pressa de quem desperdiçou três anos em silêncio e agora pretende recuperar alguma fugacidade em três meses.
A problemática não reside na presença. Esta, principalmente nos lugares mais remotos, deve ser sempre bem recebida. A questão assenta na precedente ausência, que transmite agora uma encenação, onde cada aperto de mão é uma tentativa de capitalizar votos, ao invés de uma mera expressão de empatia.
Esta saída da hibernação transporta o 07 para outra interrogação: o que motiva realmente esta presença? Se fosse o dever de serviço público, ela teria sido constante, mesmo sem máquinas fotográficas por perto.
Em sentido adverso ao pretendido, as descritas nuances somente demonstram quanto os aspirantes se encontram distantes do compromisso para connosco, mas bem perto de qualquer ferramenta que lhes conceda palco. É lamentável que, com o passar dos anos, se prorrogue e propague esta mecânica e não se encare o futuro das nossas comunidades com outra seriedade e propósito.
Há dias tive a oportunidade de assistir a uma Assembleia Municipal num dos nossos concelhos, sendo mesmo uma questão de oportunidade, uma vez que é daqueles em que as sessões ainda se realizam em horário de expediente, circunstância que também não promove a nossa presença e participação, talvez seja a intenção.
Pensei que em tal plenário escutaria coisas interessantes a respeito do futuro daquele concelho. Contudo, com grande surpresa, nos instantes que por lá parei somente se discutiu a forma como foram enviados os convites no âmbito das cerimónias do 25 de abril e uma questão a respeito da concessão de um espaço municipal, que muito mal se fundamentava, tendo a bancada opositora à autarquia sugerido a prática de ato que não decorre sequer das competências da mencionada.
Mais tarde conferi a ata e as temáticas não extravasaram o “se”, o “dizem” e o “hipoteticamente”, ficando assim clara uma plena incapacidade de diagnóstico dos problemas que assolam a maioria dos nossos concelhos e, ainda mais grave, a ausência de plano que permita resolver o que não se diagnostica.
Assim constatamos que nos encontramos sujeitos aos que saem da hibernação e vêm totalmente impreparados, arriscando-me a afirmar que desconhecem conceitos básicos da gestão pública como despacho, cabimento, compromisso, plurianualidade e por aí em diante.
Precisamos, nas nossas localidades, de gente capaz e de colocar termo à política feita de aparições súbitas e promessas recicladas que já não convencem todos, mas ainda apanham aqueles que toleram a ilusão do político de hibernação.




