Segunda-feira, 20 de Abril de 2026
Gabriela Botelho
Gabriela Botelho
Criminóloga

Temperatura e crime: Coincidência ou padrão?

As atividades humanas são dominadas por elementos climáticos como a temperatura, a humidade e as variações sazonais e a desviância não é exceção. O clima é um dos componentes que tem afetado a natureza humana e a civilização ao longo do tempo. 

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No verão, o alcatrão queima e a paciência evapora, há discussões no trânsito,  agressões por motivos banais e nas notícias que ocupam os ecrãs, os ânimos exaltados parecem acompanhar os termómetros. Já no inverno, enquanto as ruas se enchem de agasalhos e os dias ficam mais curtos, os crimes mudam de natureza. Roubos e furtos aumentam, os bolsos esvaziam e a sobrevivência vira motivação. Coincidência? Talvez não.

Na verdade, já no séc. XIX, que Adolphe Quételet sugeriu e estudou estas mudanças, preconizando que também o crime tem estações. Batizou este fenómeno de Leis Térmicas do Crime, com o qual revelou que o comportamento criminoso seguia padrões regulares e previsíveis. Tentou assim, identificar fatores sociais e ambientais que estariam na génese do crime.

Efetivamente, ao analisar exaustivamente dados criminais de vários anos em França, percebeu que crimes contra a pessoa, como homicídios e agressões, eram mais frequentes durante os meses mais quentes enquanto que crimes contra a propriedade tendiam a aumentar nos meses mais frios. Argumentava que o calor potenciava a excitação emocional e a impulsividade- predispondo os indivíduos à violência- e o frio impunha restrições económicas aumentando a motivação para a prática de crimes patrimoniais.

Esta posição de Adolphe Quételet marcou uma viragem na forma de pensar o crime, na qual o criminoso não era visto como alguém racional e propositadamente perverso ou malicioso, mas sim como um individuo cujas ações resultaram de um conjunto de fatores e forças externas que o rodeavam. Em suma, as Leis Térmicas do Crime de Quételet ilustram uma deslocação do foco da culpabilidade individual do infrator para o estudo e compreensão das causas do crime.

Ainda hoje estes dados são utilizados para prever e prevenir o crime através da análise e da observação de padrões sociais. Mais do que um exercício estatístico este fenómeno relembra-nos de algo que é essencial no estudo do crime: o ser humano é profundamente moldado e influenciado pelo mundo que o rodeia, pelo que, se procuramos mais segurança, não devemos olhar para o ofensor isoladamente, mas também para o ambiente que o produz.

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