Quinta-feira, 28 de Maio de 2026
Gabriela Botelho
Gabriela Botelho
Criminóloga

Delinquência Juvenil de vítimas a ofensores

A evidência tem demonstrado que crianças que experienciam situações de vitimação, particularmente, aquelas envolvidas no sistema de promoção e proteção, tendem a apresentar um risco significativamente mais elevado de se envolverem em comportamentos delinquentes e, consequentemente, no sistema de justiça.

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Estes são denominados jovens ‘crossover’, ou seja, jovens que, por um lado, foram ou são vítimas de maus-tratos e, por outro lado, evidenciam comportamentos disruptivos, apresentando uma sobreposição de papéis.

Um estudo realizado nos EUA revelou que 30 a 70% dos jovens que estão no sistema de justiça juvenil foram vítimas de maus-tratos. Especificamente, quanto mais tardio for o envolvimento no sistema de proteção, maior é a probabilidade de estes jovens desenvolverem padrões de comportamento delinquentes, pelo facto de a intervenção dirigida à situação de perigo com a família não ter decorrido atempadamente. Por esse motivo, os fatores de risco perduram até à adolescência, aumentando a probabilidade de envolvimento no sistema de justiça juvenil.

Muitos destes jovens apresentam necessidades complexas que os colocam em elevado risco para manifestar questões desenvolvimentais problemáticas para além dos comportamentos delinquentes. São jovens que podem apresentar problemas de saúde mental e física, bem como quadros de abuso de substâncias. Ao nível escolar, tendem a evidenciar dificuldades académicas, com padrões significativos de abandono escolar e resultados académicos fracos. No que respeita aos quadros de comportamentos desviantes, quando existem situações de vitimação prévias ou concomitantes, os jovens tendem a cometer a primeira infração numa idade mais precoce e apresentam uma taxa de reincidência mais elevada.

Esta acumulação de situações desfavoráveis vai colocá-los num nível de risco mais elevado que requer uma intervenção mais complexa. Nestes casos, quando um jovem é simultaneamente vítima e agressor, pouco eficiente será uma intervenção unilateral, ou seja, focada apenas nas manifestações comportamentais disruptivas. É necessário intervir também na situação de perigo a que o jovem está sujeito, que pode estar a incitar a prática dos comportamentos desviantes. Por este motivo, quando uma criança ou jovem evidencia comportamentos desajustados é fundamental avaliar em que contexto está inserido, ao nível familiar, comunitário e social, uma vez que esses comportamentos podem ser a ponta do iceberg de uma situação ainda mais gravosa.

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