Quinta-feira, 28 de Maio de 2026
Gabriela Botelho
Gabriela Botelho
Criminóloga

Violência e género

No âmbito da Violência Doméstica, fenómeno social e criminal complexo, a investigação e as políticas públicas têm-se centrado essencialmente na vitimação feminina. No entanto, nas últimas décadas, verifica-se um interesse crescente na análise de outras dimensões, nomeadamente a vitimação masculina nas relações de intimidade.

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Tradicionalmente os estudos sobre violência doméstica centram-se sobretudo na vitimação feminina, em grande parte pela elevada incidência, prevalência e gravidade das consequências que lhe estão associadas. Efetivamente, o que os dados nos dizem é que 67,8% das vítimas de violência doméstica são mulheres e 78,2% dos denunciados são homens. Mesmo assim, entre 2022 e 2024 a APAV apoiou 10.261 vítimas de crime e de violência, do sexo masculino, onde se destaca a violência doméstica com 11.906 crimes registados, refletindo uma tendência crescente de procura de ajuda dos homens.

Contudo, a vitimação masculina continua a ser um fenómeno pouco visível na sociedade, devido, em grande parte, aos estereótipos associados aos papéis de género.

Muitos dos conceitos do que se considera ser homem e mulher e do que é expectável de ambos, são construções sociais, segundo as quais, ao longo dos tempos a sociedade incute em cada um de nós aquilo que é aceitável que um homem e uma mulher faça, sinta e seja. E aqui também se inclui a violência.

A vitimação masculina é um tema ainda pouco discutido, precisamente, devido aos estereótipos associado aos papéis de género que associam o homem ao forte, dominante e capaz de se defender e, portanto, o agressor.

E a mulher como sendo frágil, necessitada de proteção e, consequentemente, a vítima. Isto faz com que, ainda hoje, exista um estigma social pesado sobre a vitimação masculina, o que leva a que homens vítimas de violência, possam não reportar a situação com vergonha, receio de serem ridicularizados e de não serem reconhecidos como vítimas pelas autoridades e serviços de apoio.

Esta construção social, pode fazer com que muitos casos fiquem ocultos e situações de violência se prolonguem no tempo, até porque, a investigação sugere que, na vitimação masculina, as formas mais frequentes de abuso tendem a ser psicológica e emocional, particularmente, humilhação, manipulação e ameaças, que, por si só, não são tão visíveis.

A Violência Doméstica é crime público, o que faz com que qualquer cidadão que tenha conhecimento de uma situação destas pode denunciar. Este tipo de violência designa um fenómeno complexo, que se manifesta de diferentes formas, com diferentes dinâmicas e não escolhe géneros. É importante valorizar e ouvir cada situação, independentemente das nossas ideias pré-concebidas.

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