Sexta-feira, 25 de Junho de 2021
Armando Moreira
MIRADOURO Ex-presidente da Câmara Municipal de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Uma lição da história

Está a ser uma surpresa para muitos a forma calorosa, diríamos apoteótica, como o presidente Marcelo está a ser recebido em Angola, pelas populações, designadamente, fora de Luanda.

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Titulavam os jornais: “O Presidente português levou ontem mais de duas horas a saudar o povo do Lubango” (ex-Sá de bandeira), percorrendo lentamente os 11 quilómetros entre o aeroporto e o centro da cidade onde foi recebido por uma multidão. O que se está a passar em Benguela e Lobito, à hora a que escrevemos este nosso apontamento é semelhante ou ainda superior.

Quem, como nós, conheceu os naturais daquele país, não se surpreende com esta receção calorosa que está a ser feita, não ao «Ticelito», como determinada imprensa foi antecipando, referindo-se ao PR português, mas a Portugal e aos portugueses. É que o lastro cultural que a presença de Portugal em Angola e noutros territórios, durante cinco séculos ali deixou, ainda não foi colmatado, e pensamos que jamais o será, por qualquer outra cultura.

Recordamos que o ensino primário em Angola, fora das grandes cidades, esteve entregue às Missões Católicas durante muitas dezenas de anos, porque eram estas que ocupavam todo o território, perante a fragilidade do poder administrativo. E estas, como é natural, para além dos valores religiosos, ensinavam a língua e a nossa história.

Não pode surpreender por isso, que toda aquela gente que as imagens televisivas mostraram, continuem a expressar, nestas ocasiões sentimentos de reconhecimento em relação aos valores educacionais que foram sendo incutidos ao longo de muitas décadas. Quanto a nós, o que este povo, que saiu espontaneamente ao encontro de Marcelo, quis significar, é que não se esqueceu da herança ali deixada pelos portugueses e que espera que Portugal – um país irmão, assuma agora o seu dever de ajudar ao desenvolvimento, diríamos, ao crescimento de uma nação, que existe politicamente desde a sua independência, declarada a 11 de novembro de 1975, mas, que de facto, ainda falta construir como país.

É que os efeitos de uma descolonização precipitada deixou um vazio no tecido económico que ainda não foi preenchido. O novo poder político agora instalado em Luanda, tem a noção que há no nosso país, conhecimento bastante e afinidades culturais, designadamente a partilha de uma língua comum, que podem incentivar os nossos empresários a investir em Angola, ajudando assim ao desenvolvimento das comunidades locais que vivem em território muito rico em recursos naturais.

De resto, tanto quanto pudemos perceber, as intenções do presidente de Angola, General João Lourenço, ao preparar esta visita de Estado, vão no sentido de dar oportunidade aos empresários e cidadãos do nosso país, permitindo o desenvolvimento, designadamente na agropecuária e pesca, a fim de ajudar a diversificar a economia angolana. Aproveitar os saberes da gestão, da ciência ou da governação dos portugueses é crucial para o sucesso do projeto que João Lourenço anunciou. Daí entendermos, que esta visita presidencial é uma verdadeira lição da história, para todos os que não conheceram Angola. Que tem potencialidades para ser, se é que já não é, um dos maiores países de Africa a Sul do Saara.  

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